Tal como acontece nos restantes países da Europa, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal. O investimento na prevenção cardiovascular e os avanços terapêuticos nesta área têm feito o seu papel, e a tendência é decrescente , mas ainda há um longo caminho a percorrer, e as mulheres destacam-se. Em Portugal, as doenças cardiovasculares foram responsáveis por quase 43% das mortes em 1980 e por cerca de 26% em 2021. Em 2021, quase 56% destas mortes foram de mulheres, principalmente nas idades mais avançadas. O enfarte do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC) são as principais doenças cardiovasculares que são causa de morte. A relação das mulheres com a doença, o reconhecimento de fatores de risco específicos e o papel dos profissionais de saúde são áreas em que há melhorias a fazer que muito podem ajudar. Relação das mulheres com a doença As mulheres subvalorizam o seu próprio risco , independentemente dos fatores de risco que apresentem ou de já terem uma doença cardiovascular estabelecida, o que pode dever-se a falta de informação sobre o impacto destas doenças na mortalidade. Por exemplo, um estudo realizado nos EUA revelou que menos de metade das mulheres sabia que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte para o seu género . O seu maior foco em doenças tipicamente femininas pode contribuir para menos queixas e, consequentemente, menos discussão e informação sobre o risco cardiovascular por parte dos profissionais de saúde que as acompanham, não se abordando assim temas de modificação do estilo de vida ou instituição de terapêutica específica. O estigma social em relação ao peso corporal é também um dos motivos apontados como barreira da discussão da saúde cardiovascular. Fatores de risco cardiovascular específicos da mulher Para além de fatores de risco cardiovascular clássicos, como o tabagismo, a diabetes e a hipertensão (cujo impacto na mulher parece ser superior ao do homem), há fatores de risco exclusivos das mulheres, determinados pela sua biologia e percurso hormonal natural relacionado com questões ginecológicas, obstétricas e endocrinológicas. Há um conjunto de condições na gravidez que contribui de forma independente para o risco cardiovascular futuro e que têm uma importância crescente com a maternidade em idade mais tardias, como: A hipertensão na gravidez; A diabetes gestacional; O parto pré-termo; A restrição de crescimento intrauterino; O aborto. As sociedades internacionais defendem, por isso, que deve ser feita uma avaliação cardiovascular aos 3 meses após o parto, para que se possa discutir o risco e instituir medidas preventivas que sejam necessárias. Nas mulheres com menopausa precoce (< 40 anos) aumenta tanto a incidência de fatores de risco clássicos quanto a ocorrência de enfarte e acidente vascular cerebral. A contraceção deve merecer sempre uma avaliação cuidada, sobretudo em mulheres com doença cardíaca conhecida. Outros fatores de risco não clássicos como os relacionados com doenças reumatológicas e fatores psicossociais (ansiedade, depressão) têm um impacto no risco cardiovascular mais elevado nas mulheres. O papel dos profissionais de saúde É conhecido que por diversas razões há um menor diagnóstico e tratamento pró-ativo da doença cardiovascular na mulher do que no homem. Há estudos que demonstram uma tendência para ser atribuída uma categoria de risco inferior às mulheres, comparativamente aos homens com risco equivalente, subestimando-se assim a sua probabilidade de doenças cardiovasculares. Esta subvalorização pode ser um dos motivos que justificam o facto de as mulheres recebam menos terapêutica cardiovascular, quer preventiva, quer após um enfarte do miocárdio. Há também uma menor tendência para encaminhar mulheres para exames de diagnóstico dirigidos ou para tratamento invasivo (como o cateterismo cardíaco). As mulheres também têm estado sub-representadas nos ensaios clínicos: Na última década, a representatividade das mulheres em ensaios clínicos cardiovasculares foi de cerca de 38%, o que interfere com a avaliação dos resultados e qualidade das conclusões que se possam tirar relativamente às mulheres. É urgente sensibilizar. Reconhecer a importância das doenças cardiovasculares nas mulheres e investir na sua prevenção tem de ser uma prioridade de todos. Autor: Rita Carvalheira dos Santos Fontes Estatísticas da Saúde 2022. Instituto Nacional de Estatística 2024. Timóteo AT, Ribeiras R, Calé R, et al. Saúde cardiovascular da mulher. Documento de Consenso da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Sociedade Portuguesa de Ginecologia, Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, Sociedade Portuguesa de Contraceção e Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Rev Port Cardiol 2023;42:100115. Cho L, Davis M, Elgendy I, et al. Summary of updated recommendations for primary prevention of cardiovascular disease in women: JACC state of the art review . J Am Coll Cardiol 2020;75:2602-18. Leifheit-Limson EC, D'Onofrio G, Daneshvar M, et al. Sex differences in cardiac risk factors, perceived risk, and health care provider discussion of risk and risk modification among young patients with acute myocardial infarction: The VIRGO study . J Am Coll Cardiol 2015;66:1949-57. Conheça a equipa clínica de Cardiologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. 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