Numa sociedade que funciona cada vez mais 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, dormir é frequentemente considerado uma atividade supérflua. Há tanto para fazer, tanto para alcançar. Num ritmo alucinante queremos fazer sempre mais e, principalmente, achamos que conseguimos fazer sempre mais, esquecendo a nossa condição biológica, a existência de limites físicos e as nossas necessidades básicas enquanto seres vivos. As nossas atividades diárias deixaram de estar reguladas pela luz solar, por ser dia ou ser noite, para estarmos permanentemente ligados num mundo virtual, 24/24 horas. Esquecemos tantas vezes que temos um relógio interno e uma necessidade específica de sono , que nos caracteriza individualmente como seres humanos. Embora, aparentemente, tenhamos liberdade para escolher o que queremos fazer e quando o queremos fazer, frequentemente não conseguimos parar e dizer não. O que fazemos é tentar enganar o nosso sistema biológico para não sentirmos sono, tantas vezes de forma inconsciente, mas com consequências nefastas para a saúde. Porque dormimos? Dormir é uma necessidade homeostática do nosso organismo, quer isto dizer que nos permite manter o equilíbrio do nosso sistema biológico , tal como comer ou beber. Cada um de nós tem uma necessidade específica de sono, quer em termos de quantidade, quer em termos da hora preferencial para o sono e o despertar aconteceram. Estes aspetos devem ser tornados conscientes e respeitados por cada um, individualmente. Esquecemo-nos tantas vezes que dormimos porque temos cérebro, isto é, o sono é uma função do cérebro , tal como outras funções neurológicas: a linguagem, a memória, a mobilidade ou a sensibilidade de um dos membros. E tal como todas as outras funções do cérebro, tem subjacente circuitos neuronais específicos que são ativados ou desativados para que o sono aconteça. O adormecimento, o sono propriamente dito, a alternância entre as diferentes fases do sono ao longo de uma noite, a consolidação do sono profundo, a proteção dos despertares e o próprio despertar têm subjacente circuitos específicos, que se vão conhecendo cada vez melhor. No entanto, o sono é uma função cerebral muito particular. Particular porque é uma função que tem, como objetivo último, tornar o sistema que a produz muito mais eficiente . Podemos dizer que o sono existe para que todas as outras funções cerebrais e de todos os outros órgãos aconteçam de forma mais eficaz e eficiente. Prova disso são os efeitos da privação do sono, quer aguda, quer crónica. De facto, a falta de sono afeta o funcionamento do nosso próprio cérebro. Todas as funções cerebrais se tornam menos eficientes quando existe uma perturbação do sono, seja ela qual for, significando isto que a maioria das nossas funções cerebrais, como a memória, a atenção, a concentração, as capacidades visuo-perceptivas, visuo-construtivas, a capacidade de mudar de estratégia, o pensamento abstrato, a criatividade, a linguagem, as emoções ou mesmo a destreza motora dependem do sono. Quanto precisamos de dormir? Haverá pessoas que se sentem perfeitamente bem dormindo 6 horas por noite, mas outras precisarão de dormir 10 horas, sem que isso seja sinal de preguiça ou de doença, mas uma consequência da nossa variabilidade genética. Nem todos temos os olhos azuis, nem todos temos a pele clara, nem todos ficamos restabelecidos com 6 horas de sono. Aliás, a grande maioria de nós não fica. Somos diferentes e devemos continuar a querer ser diferentes. Na realidade, não conseguimos dormir menos, só porque nos dá jeito e sem que isso tenha consequências. E porque não dormimos tão bem quanto gostaríamos? Muitas vezes não dormimos bem porque tentamos enganar o nosso próprio sistema biológico , tantas vezes sem que tenhamos perceção de que o estamos a fazer: Expomo-nos a intensas emissões de luz em monitores fantásticos, quando já escureceu lá fora. Consumimos durante todo o dia bebidas e alimentos estimulantes que nos tiram o sono, nomeadamente a pressão para o sono (que se vai acumulando ao longo do dia) e a quantidade de sono de ondas lentas, essenciais para que tenhamos um adormecer natural a uma determinada hora e para que na manhã seguinte tenhamos a sensação de que o sono foi reparador. Para muitos de nós, um café (mesmo que seja tomado pela última vez depois do almoço) tem esse efeito. Adiamos as refeições para mais tarde (por vezes jantamos à hora em que devíamos estar a adormecer), desconhecendo que a hora das refeições também ajuda à sincronização do nosso ritmo sono-vigília. Temos ainda inúmeras atividades ativadoras no final do dia, físicas e intelectuais, quando deveríamos nessa altura estar progressivamente a preparar o nosso sistema para naturalmente se desligar (porque não temos um botão de on/off e não dormimos quando queremos, mas quando estamos preparados para tal). À noite, ficamos a ver televisão, uma série ou um filme achando que temos o direito de descontrair um pouco no final de um dia de trabalho. Claro que temos! Mas não à custa de horas de sono. Quando nos deitamos, quantas vezes usamos esses primeiros minutos para pensar no que temos para fazer no dia seguinte? Em silêncio e sem outros estímulos exteriores, esta é uma excelente forma de pormos o nosso cérebro a funcionar, de o auto-ativarmos, de o colocarmos a fazer o que ele melhor sabe fazer: pensar. No entanto, não devia ser isso que queríamos fazer aquela hora, se o objetivo era adormecer e, portanto, permitir que a atividade cerebral mudasse progressivamente de um modo acordado para um modo sono. Muitas horas antes de ir para a cama, devíamos ter reservado um tempo para pensar nisso e em todas as preocupações que nos afligem. Poderíamos por exemplo ter reservada uma cadeira das preocupações onde, à tarde, pudéssemos pensar nos nossos problemas, dificuldades, receios, planos, projetos e ordenar as nossas prioridades para o dia seguinte. E ao fim-de-semana, quantas vezes os nossos horários de deitar e levantar são completamente diferentes daqueles que temos durante a semana? É como se mudássemos todos os fins de semana de fuso horário. Imaginam-se a viajar para Nova Iorque todas as sextas feiras à noite, depois de uma semana cansativa de trabalho e a voltar novamente a Portugal de manhã cedo na segunda-feira e recomeçar de imediato a trabalhar? Seria muito difícil, dirá a maioria, estariam em jet-lag... Mas a verdade é que sem ter saído do país, muitos de nós vivem naquilo a que chamamos um jet-lag social. Quais são consequências da privação de sono? Ao não respeitarmos o nosso relógio interno ou dormirmos menos do que precisamos, não estaremos a respeitar premissas essenciais da nossa biologia, premissas essas que não podem, nem devem, ser modificadas. Significa que estamos a tornar-nos menos eficientes, ao contrário do que muitas vezes pensamos. Tentar ter um ritmo que não é o nosso terá repercussões pesadas , como: Sonolência diurna excessiva; Alterações das nossas capacidades cognitivas, nomeadamente da atenção, do tempo de reação, da memória, da capacidade de tomar decisões, do humor; Um maior risco de acidentes. A privação de sono associa-se ainda a um maior risco cardiovascular , a alterações endocrinológicas e metabólicas , que podem dificultar o controlo do peso, e a alterações da imunidade que condicionam um risco aumentado de infeções. É curioso saber que a privação crónica de sono pode levar a uma diminuição da sensação de sonolência mantendo-se, no entanto, as alterações neurocognitivas e psicológicas que lhe estão associadas. Este facto, ajuda a perpetuar a própria privação de sono e a um aumento da chamada “dívida de sono”. Por outro lado, a avaliação que cada um de nós faz sobre a forma como se sente quando está em privação de sono, pode não ser proporcional aos reais efeitos neurológicos desta (quando estes são medidos objetivamente através de diferentes exames complementares de diagnóstico). Isto significa que podemos não ter muito sono, mas ter grandes alterações no nosso desempenho, relacionadas com a privação de sono. Autora : Carla Bentes Na rede Hospital da Luz, médicos de várias especialidades – neurologia , pneumologia , otorrinolaringologia , pediatra – nas sua vertentes de atuação específicas e com diferenciação em medicina do sono podem ajudá-lo no seu problema do sono. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.