Neste podcast Hospital da Luz, oiça os conselhos das especialistas em neonatologia Ana Berdeja e Graça Henriques , da equipa de pediatria do Hospital da Luz. Google | iTunes | Spotify É num hospital que a mãe e o bebé têm as condições adequadas para serem assistidos na altura do parto e logo após o nascimento. Aqui, podem contar com uma equipa multidisciplinar pronta a atuar, composta por médico anestesiologista, médico obstetra, médico pediatra e enfermeiro. Mas, assim que o bebé nasce, é natural os pais serem assaltados por dúvidas e questões sobre uma realidade que é para eles totalmente nova. Este é o principal conselho a seguir: tenham calma e peçam ajuda sempre que precisarem . Os profissionais de saúde estão cá para isso mesmo. Ainda antes do parto, podem realizar uma consulta pré-natal com o pediatra que vai depois seguir o bebé . É uma excelente oportunidade para o médico ficar a conhecer os pais, esclarecer muitas dúvidas e partilharem contactos. A avaliação do recém-nascido no bloco de partos Assim que o bebé nasce, o médico pediatra faz uma avaliação global do seu estado físico. Para o receber nas melhores condições, ele já foi informado antes do parto se está perante um bebé de termo (mais de 37 semanas de gestação) ou um bebé pré-termo (menos de 37 semanas), se tem baixo peso ou um peso adequado. Nesta primeira avaliação, está integrado o chamado teste de Apgar , em que o pediatra atribui pontuação a 5 parâmetros (frequência cardíaca, frequência respiratória, tónus muscular, reflexos e cor da pela). O teste é feito ao 1.º minuto e depois ao 5.º minuto, em que o bebé tem de ter um Apgar superior a 7 – o que quer dizer que não virá a ter problemas derivados do parto. É preciso que os pais saibam que 90% dos bebés nascem bem . Os outros 10% que não nascem em tão perfeitas condições têm de ser logo ajudados para não virem a sofrer sequelas. Se o bebé nasce a chorar, está rosado e manifesta ótima vitalidade , é porque está bem – e é logo posto em primeiro contacto pele a pele com a mãe, que é muito importante para ambos. Acontece por vezes, porém, que isso não é logo possível, mas tal não deve ser causa de frustração: basta esperar um pouco e deixar o pediatra dar a ajuda necessária. É preciso ver se o bebé respira bem e está aquecido, pois acabou de sair de uma temperatura de 36-37 o C dentro da mãe e vem cá para fora húmido e para uma temperatura muito inferior. A avaliação pelo pediatra será repetida 24 horas depois de o bebé nascer. As primeiras horas de vida Quando vai para o quarto, incentivamos a mãe a amamentar, a cuidar o máximo possível do bebé e a estar presente em todas as situações. Os rastreios Enquanto o bebé está no hospital com a mãe, o pediatra faz-lhe três rastreios: Rastreio auditivo; Rastreio de cardiopatias congénitas (alterações do coração) Rastreio do ‘olho vermelho’ (para detetar défice visual ou alterações da retina, por exemplo). Estes são os rastreios recomendados e que permitem fazer um diagnóstico precoce de alguma doença e desde logo adotar a terapêutica adequada. A icterícia e qual a sua importância A icterícia – uma coloração amarelada da pele e olhos que traduz um nível elevado de bilirrubina no sangue do bebé – é uma das situações que por vezes obrigam a prolongar o internamento do bebé no hospital, causando alguma ansiedade aos pais. É preciso que saibam que cerca de 50% dos bebés têm icterícia , mas normalmente é a chamada icterícia fisiológica , sem relevância. A icterícia patológica , que obriga o pediatra a atuar, é menos frequente , mas não é muito grave. Se os valores da bilirrubina (causadora da icterícia) forem altos, o bebé tem de fazer fototerapia e fica internado mais 24 a 48 horas, na maioria das vezes, e a situação resolve-se. A amamentação O leite materno é o melhor leite possível para o bebé. A amamentação, porém, provoca por vezes ansiedade às mães. É preciso terem em conta que cada bebé tem o seu ritmo e é isso é perfeitamente natural: há bebés que nascem e logo a seguir já estão a mamar, parece que nascem ‘ensinados’, mas há outros que são mais lentos e têm maior dificuldade. Na verdade, nos primeiros dias de vida, o bebé mama muito pouco porque o primeiro leite da mãe é o que nós chamamos o colostro, um leite muito concentrado e pouco líquido, e as mães não conseguem perceber se o bebé mamou o suficiente ou não. A produção de mais leite e mais concentrado , pelo organismo da mãe, acontece por volta do 3º-4º dia de vida do bebé – o que por vezes torna esta fase complicada, com a mulher a sentir-se ‘perdida’, sem saber se o bebé está a mamar bem. Nestes casos, tem de se avaliar o peso do bebé e nós orientamos. É importante não ter ideias rígidas e saber que cada bebé e cada mãe têm de se adaptar um ao outro. Perguntam-nos muitas vezes se o bebé deve mamar 10 minutos ou 25-30 minutos e se deve fazê-lo só numa mama ou nas duas. Ora, isso depende muito de bebé para bebé. Se a criança está ativamente a mamar durante 15 minutos, se calhar isso já chega para ficar satisfeito e bem alimentado; mas se faz grandes pausas ou adormece frequentemente, por exemplo, já precisa demais tempo. E a mudança de uma mama para a outra depende da capacidade que o bebé tem para esvaziar o peito. A amamentação durante a noite Os bebés devem ser acordados para mamar de 2 em 2 horas, ou 2h30, nunca devendo passar as 4 horas nestas primeiras semanas de vida. Depois de ir ao pediatra e se se vir que o bebé está confortável durante a noite, pode-se prolongar um pouco e tem de se ir adaptando. Quando o bebé vai para casa É muito importante realizar uma consulta com o médico pediatra entre os 10 e os 15 dias de vida do bebé, para permitir que pais esclareçam muitas dúvidas que só chegam precisamente quando levam o bebé para casa. No dia-a-dia com o seu bebé, há algumas situações a terem atenção e para as quais devem estar preparados. Soluçar, espirrar, bolsar e respirar Os soluços são perfeitamente normais num recém-nascido e têm que ver com a forma como o bebé inspira, de forma muito rápida, quando está a mamar. Os espirros são normais e não querem dizer que o bebé está constipado. É espirrando que o bebé elimina as impurezas pelo nariz, sendo importante que as fossas nasais estejam desobstruídas, pois 80% da sua respiração é feita pelo nariz. Bolsar ou regurgitar com fluxo também não é preocupante . Se o estômago está cheio e se engoliu algum ar, é natural o bebé bolsar no final da mamada. A respiração sofre modificações ao longo do tempo. Os bebés respiram habitualmente por ‘salvas’: uma respiração muito rápida, seguida de pausas (que às vezes podem ir até 20 segundos) e depois volta a respiração rápida. Essas pausas não têm nada de patológico. Sinais de alerta Os pais devem estar atentos se o bebé manifestar sintomas que podem sinalizar que não está bem . Nestes casos, devem ir logo ao pediatra ou mesmo recorrer a um serviço de atendimento urgente: O bebé emite gemidos ou tem dificuldade respiratória; Febre; Vómitos em jato; Coto do cordão umbilical a cheirar mal. Se o bebé dá sinais de desconforto, mesmo que inespecíficos. As cólicas Se o bebé tem um choro intenso, encolhe as pernas na direção da barriga e nota-se que está a eliminar gases, isso quer dizer que tem cólicas. As cólicas não são uma manifestação de qualquer doença : resultam da acumulação anormal de gás no intestino imaturo do recém-nascido. Surgem habitualmente por volta das 3 semanas de vida e prolongam-se até aos 2 meses ou 2,5 meses. E é preciso lidar com a situação com muita paciência e tranquilidade . Há algumas medidas a tomar para minorar as cólicas: Verificar se o bebé tem o nariz obstruído (se não respira pelo nariz, então tem a boca sempre aberta e engole mais ar); Se, quando a mãe está a amamentar, a ‘pega’ está a ser feita corretamente (se todo o mamilo é adaptado bem à boca do bebé, caso contrário, ele engole mais ar); ou então, se já mamar em biberão, verificar se a tetina está cheia de leite (caso contrário, engole também mais ar); Fazer massagens suaves na barriga do bebé, encolher e esticar-lhe as pernas; Perceber se o bebé faz dejeções de forma adequada ou não. Se o bebé não melhorar, deve-se falar com o pediatra. Há alguns medicamentos que podem ajudar, mas têm de ser prescritos pelo médico e depois deve-se aguardar para avaliar se fazem efeito ou não. Há pais que recorrem aos chás, mas é preciso ter cuidado e consultar primeiro o pediatra, pois alguns chás podem ter alguma toxicidade para os rins dos recém-nascidos. O banho O banho tem de ser um momento de prazer e de partilha entre a mãe, o pai e o bebé. Pode ser dado todos os dias, se isso for um prazer para o recém-nascido. Se se tornar uma situação geradora de ansiedade e stress para os pais, é preferível dar banho dia sim, dia não. Tenham em mente que os bebés cresceram no meio do líquido amniótico, na barriga da mãe, e por isso vão gostar progressivamente mais da água. O banho contribui para relaxar o bebé e por isso deve ser dado ao final do dia. Pode ser antes ou depois da refeição – isso é indiferente –, mas sabemos que se movimentarmos muito o bebé após a refeição, provavelmente ele vai bolsar mais. Finalmente, deve-se preparar e organizar tudo antes de começar a dar o banho (roupa, toalha, local do banho aquecido), para não correr o risco de deixar o bebé despido e desconfortável. Saídas à rua Entre os 10 e os 15 dias de vida , em média, depois de observado na primeira consulta que deve ter com o pediatra, o bebé pode sair à rua. De preferência, deve ser uma ida ao jardim, quando não haja muita gente. Deve-se evitar aglomerados e centros comerciais. Estas breves saídas à rua , em que até adormece com a trepidação do carrinho, fazem bem não apenas ao bebé como também à mãe. Isto se for um recém-nascido de termo (mais de 37 semanas de gestação), pois os bebés prematuros exigem alguns cuidados adicionais. As visitas da família e o convívio com os irmãos A chegada de um filho é uma mudança muito grande na vida de um casal e deve ser vivida com tranquilidade. Não devem ter vergonha de dizer à família que não querem visitas na primeira ou na segunda semana de vida do bebé, até porque muitas vezes a mulher fez uma a cesariana e não está confortável. As visitas devem ser restringidas à família próxima , ou seja, os avós. Nesta conjuntura de pandemia de covid-19, estes têm de lavar e desinfetar previamente as mãos, usar máscara e não mexer nem pegar ao colo no recém-nascido. Em geral, as visitas devem respeitar as horas do sono e da alimentação do bebé , não devendo prolongar-se mais de 15 ou 30 minutos, caso contrário tornam-se muito cansativas para a mãe e afetam a rotina do bebé. De resto, à medida que o bebé cresce, poderá sempre ter visitas, mas estas não podem tocar-lhes, pois facilmente um bebé com 2-3 meses de vida apanha infeções que podem tornar-se complicadas. Os irmãos são muito importantes na vida do bebé, mas também podem constituir um problema, sobretudo quando já andam na escola, pois podem ser veículo de transmissão de doenças para as quais o organismo do bebé ainda não está preparado. Por isso, devem ser tomados alguns cuidados nos contactos. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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