Autores : Victor Gil e Diana Aguiar de Sousa As doenças cardiovasculares e cerebrovasculares continuam a liderar as causas de morte e incapacidade em todo o mundo e Portugal não é exceção. Apesar dos progressos atingidos das últimas décadas no conhecimento e controlo de fatores de risco vascular e de fatores facilitadores de risco, muito há ainda a fazer e é necessária uma grande mobilização de toda a comunidade para melhor prevenir estas doenças. São fatores de risco cardiovascular o colesterol elevado, consumo de tabaco, hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo. São fatores facilitadores do risco as doenças inflamatórias, fragilidade pessoal e social, doenças mentais, poluição atmosférica, entre outros. A maioria destes fatores são evitáveis ou modificáveis . Por exemplo, no caso do acidente vascular cerebral (AVC), estima-se que 90% do risco seja explicado apenas por fatores de risco modificáveis. Depois de um primeiro episódio: prevenção secundária A aterosclerose é uma inflamação crónica das artérias que está na origem de muitos casos de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. Tem intercorrências agudas com formação de trombos que ocluem as artérias, provocando: No caso das artérias coronárias, que levam sangue ao músculo cardíaco, enfarte do miocárdio ; No caso das artérias cerebrais, AVC isquémico . Depois de um primeiro evento deste tipo – quer um enfarte do miocárdio, quer um AVC – faz parte da terapêutica crónica padrão para prevenção de eventos futuros a toma de uma pequena dose diária de aspirina . Esta toma justifica-se pelo efeito da aspirina de contrariar a formação de trombos (efeito antitrombótico). Em casos específicos, a aspirina é substituída por fármacos com propriedades equivalentes. Nos períodos iniciais após o episódio agudo, de maior vulnerabilidade e risco, pode ainda ser associado um outro fármaco para aumentar o efeito. Iniciar terapêutica anticoagulante também pode estar indicado quando são detetadas determinadas arritmias. Fazer medicação preventiva após um primeiro evento de qualquer natureza para prevenir a sua repetição faz parte do que se designa prevenção secundária . E a prevenção primária? A questão da prevenção primária com medicação antitrombótica em pessoas que nunca sofreram um AVC ou um enfarte do miocárdio não é tão inequívoca, tem vindo a alterar-se ao longo dos anos e não é ainda consensual na comunidade médica. Algumas recomendações mais antigas, baseadas no racional farmacológico e em pequenos estudos, foram subsequentemente substituídas por estudos de maior robustez que avaliaram, em doentes crónicos, o balanço entre o seu potencial benefício e o risco. De facto , os fármacos antitrombóticos estão associados a risco de hemorragia , muitas vezes mediado por agressão direta do tubo digestivo alto, que aumenta com a idade dos doentes. Quando o risco trombótico existe, mas é relativamente baixo, o risco hemorrágico associado não favorece o uso da aspirina ou fármacos similares em muitas situações. Não obstante, em doentes de risco trombótico mais elevado, a prevenção primária pode justificar-se. Por exemplo, na doença arterial periférica (como a doença obstrutiva das artérias dos membros inferiores), nos aneurismas da aorta e na doença das carótidas existem indicações individuais no que toca à toma de aspirina. As recomendações atuais Tendo em conta as diversas opiniões e respetivos fundamentos que a suportam, e em linha com as mais recentes recomendações (2022) que têm em conta as recomendações do American College of Cardiology de 2019 e da European Society of Cardiology de 2021, defendemos o seguinte: Prevenção secundária A aspirina (ou fármaco equivalente proposto pelo médico em fundamentada decisão individual) deve ser tomada por todas as pessoas em prevenção secundária (doentes que já sofreram enfarte do miocárdio ou AVC isquémico). São exceções os doentes com AVC isquémico associado a fibrilação auricular, em que está indicada outra classe de fármacos antitrombóticos, nomeadamente os anticoagulantes. Prevenção primária Na prevenção primária, a regra é a não recomendação do uso de aspirina . No entanto: Nos doentes com 40-59 anos com risco cardiovascular muito elevado (>10%) pode justificar-se a sua utilização; Nos que têm mais de 60 anos mantém-se na generalidade dos casos não ser recomendável iniciar aspirina em prevenção primária; Contudo, os potenciais benefícios do uso de aspirina na prevenção de outras situações, como o cancro colorretal, suportam que a decisão final seja feita para todos os doentes numa base estritamente individual. No futuro, a utilização de testes laboratoriais de diagnóstico, como o teste de agregabilidade, pode ajudar a tomar melhores decisões no aspeto da medicação em prevenção primária. Contudo, antes de mais, o controlo de outros fatores de risco tem de ser otimizado e os hábitos de vida saudável praticados . Em suma Tomar aspirina preventivamente: sim ou não? Em prevenção secundária sim, na maioria dos casos; Em prevenção primária não, exceto em situações particulares avaliadas caso a caso por um médico com treino adequado em risco cardiovascular. Fontes Dehmer SP, O’Keefe LR, Evans CV, Guirguis-Blake JM, Perdue LA, Maciosek MV. Aspirin use to prevent cardiovascular disease and colorectal cancer: Updated modeling study for the US preventive services task force . JAMA 2022;327:1598–1607. Berger JS. Aspirin for primary prevention: Time to rethink our approach . JAMA Netw Open 2022;5:e2210144. Conheça as equipas clínicas de cardiologia e neurologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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