Nas últimas duas décadas, vários estudos relataram o efeito positivo da ingestão de tomate na prevenção de cancro da próstata. No entanto, os resultados que ao longo dos anos foram ficando disponíveis, e que já dizem respeito a vários milhares de homens que foram estudados, não permitiram estabelecer uma relação inequívoca entre o consumo de tomate – cru, cozinhado, em molho ou em sumo – e o risco de cancro da próstata ou a progressão desta doença depois de diagnosticada. Porquê o tomate? O interesse pelo tomate na prevenção do cancro da próstata está relacionado, principalmente, com o pigmento que é responsável pela sua cor: o licopeno . O licopeno é um pigmento lipossolúvel, responsável por fornecer uma cor vermelha. Este caroteno é conhecido pelas suas propriedades biológicas e físico-químicas especialmente relacionadas com o seu papel antioxidante. Encontra-se em quantidades apreciáveis nos hortícolas e frutos de cor vermelha-alaranjada, dos quais se destaca o tomate, e que também inclui a melancia e a goiaba. Devido ao caráter lipossolúvel do licopeno, sempre que consumido com gordura, verifica-se uma maior absorção. A sua forte ação antioxidante torna-se igualmente importante na proteção do nosso ácido desoxirribonucleico (ADN), na eliminação de radicais livres resultantes do stress oxidativo e na indução da apoptose (morte) de células cancerígenas, sendo-lhe atribuído um evidente papel protetor, particularmente no cancro da próstata. O que se sabe e se tem feito sobre este assunto Os resultados de diversos estudos envolvendo grupos de população masculina sugeriram que a ingestão de tomate pode reduzir o risco de desenvolver cancro da próstata ou atrasar a evolução da doença depois de ter sido diagnosticada. No entanto, por diversas razões, quando estes estudos são considerados globalmente não é possível estabelecer uma relação causal inequívoca. Apesar disso, o interesse pelas propriedades dos produtos com tomate e licopeno mantêm-se e têm sido usados também vários modelos experimentais para tentar esclarecer o assunto. Neste caso, os resultados têm sugerido que: O licopeno é um composto bioativo anticancerígeno, e talvez não o único que o tomate possui. A cocção e a destruição mecânica das suas membranas no processo de trituração tornam o licopeno mais biodisponível, ou seja, mais facilmente absorvido pelo organismo. Embora pareça ser claro que o tomate e o licopeno têm atividade anticancerígena relativamente ao cancro da próstata, há ainda lacunas de informação sobre a relação dose-resposta e mecanismos de ação envolvidos. Em suma, é necessário ter em consideração que os efeitos do licopeno podem diferir de pessoa para pessoa , devido a fatores como o teor de gordura na dieta, o uso de probióticos (presentes, por exemplo, nos iogurtes, que dificultam a absorção de licopeno), diferenças genéticas no metabolismo, a sinergia que pode ocorrer entre dois componentes e que potencia a capacidade antioxidante, entre outros. Saudável e versátil O tomate ocupa um lugar destacado entre os alimentos da dieta mediterrânica. Fazer parte regularmente da nossa alimentação terá sempre benefícios . Além do licopeno, composto com propriedades antioxidantes, é rico em vitaminas A, C, E e do complexo B, e em minerais, principalmente potássio, fósforo e magnésio. A sua versatilidade na cozinha, cru ou cozinhado, desde as saladas, aos doces, aos molhos ou como ingrediente de muitos pratos, mais ou menos tradicionais, fazem com que tenha um papel insubstituível. Cancro da próstata em Portugal Em 2019 , ano para o qual estão disponíveis os últimos dados de Portugal: O cancro da próstata foi responsável por 3,3% das mortes; Os casos de morte por cancro da próstata foram 1903, dos quais: 406 (21%) entre os 55-74 anos; 1484 (78%) em homens com mais de 75 anos (1486) Estes valores representam 39,3 mortes por cancro da próstata por cada 100 000 habitantes, valor mais elevado da última década e superior ao de países como Espanha (25,1), Itália (26,6) ou os Estados Unidos (19,4). Fontes Luo J, Ke D, He Q. Dietary tomato consumption and the risk of prostate cancer: a meta-analysis. Front Nutr 2021;8:625185. Moran NE, Thomas-Ahner JM, Wan L, et al. Tomatoes, lycopene, and prostate cancer: what have we learned from experimental models? J Nutr 2022;152:1381-403. World Health Organization. WHO mortality database . Autora : Alexandra Lima Conheça a equipa clínica de nutrição da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.