Os relógios inteligentes, em inglês smartwatches , estão cada vez mais presentes no nosso dia-a-dia. Estima-se que nos Estados Unidos da América uma em cada três pessoas use um destes dispositivos. Em toda a Europa (e em Portugal), a utilização dos smartwatches também vai crescendo. Em 2022 estima-se que existissem cerca 1,1 mil milhões de dispositivos em utilização no mundo inteiro. Através de vários sensores , os smartwatches conseguem monitorizar diversos parâmetros de saúde , como, por exemplo: Frequência cardíaca; Saturação de oxigénio; Padrões de sono; Níveis de atividade física. No que diz respeito diretamente ao coração e para além da frequência cardíaca, vários equipamentos permitem detetar arritmias, nomeadamente fibrilhação auricular e têm recebido aprovação para o efeito das entidades reguladoras, nomeadamente FDA ( Food and Drug Administration ) e CE ( Conformité Européenne ). Os smartwatches que detetam arritmias , fazem-no através das seguintes tecnologias: Fotopletismografia Tecnologia que permite identificar alterações na absorção de luz pelos tecidos e que indiretamente deteta variações no volume de sangue dos capilares sanguíneos. Estas variações são usadas para calcular a frequência cardíaca e a regularidade do ritmo cardíaco. Sensores de atividade elétrica Através de elétrodos em contacto com a pele, os sensores detetam a atividade eléctrica cardíaca e, à semelhança do que se faz num eletrocardiograma convencional, podem registar uma tira de ritmo cardíaco. Esta tira de ritmo apenas mostra uma derivação e tem uma interpretação mais limitada do que um eletrocardiograma convencional que mostra 12 derivações. Algoritmos de inteligência artificial Estes integram as informações da fotopletismografia e dos sensores de atividade elétrica com a de sensores de movimento e outros parâmetros medidos pelo smartwatch , para aumentar a acuidade na identificação de arritmias cardíacas. A utilização da informação dos smartwatches no apoio ao diagnóstico de arritmias, nomeadamente de fibrilhação auricular, é uma ferramenta promissora e que não deve ser descurada pelos médicos em geral e por cada um de nós em particular. No entanto, há uma questão fundamental para a qual é importante saber a resposta: Se um smartwatch indicar que se tem fibrilhação auricular, deve-se ou não acreditar? Para responder a esta questão, investigadores de um hospital na Suíça realizaram um estudo em que foi comparado o desempenho de cinco smartwatches com o do eletrocardiograma convencional relatado por médicos, no diagnóstico de fibrilhação auricular. A população estudada incluiu: 201 doentes que recorreram a uma consulta de cardiologia; Idade média de 66,7 anos; 31% mulheres; 31% com fibrilhação auricular. Estes doentes usaram cada um dos seguintes dispositivos para registar o traçado de eletrocardiograma e detetar a presença de fibrilhação auricular, recorrendo à tecnologia presente em cada um: Apple Watch 6 Samsung Galaxy Watch 3 Withings Scanwatch Fitbit Sense AliveCor KardiaMobile Além disso, todos fizeram um eletrocardiograma convencional de 12 derivações interpretado por um médico. Estes foram os principais resultados do BASEL Wearable Study A sensibilidade, isto é, a probabilidade de detetar fibrilhação auricular quando esta estava efetivamente presente, variou entre 58% no Withings Scanwatch, e 85% no Apple Watch 6 e no Samsung Galaxy Watch 3; A especificidade, isto é, a probabilidade de a fibrilhação auricular detetada corresponder na verdade a esta arritmia, após confirmação por eletrocardiograma, variou entre 69% no AliveCor KardiaMobile, e 79% no Fitbit Sense; Ocorreram, em média, 20% de traçados inconclusivos, isto é, ritmos que os algoritmos automáticos dos smartwatches não conseguiram interpretar. Quando estes traçados inconclusivos foram excluídos, a sensibilidade e a especificidade dos dispositivos aumentou para mais de 90% em todos eles, com 92% dos traçados interpretáveis classificados corretamente. Para além dos resultados referidos, que são muito interessantes, os traçados eletrocardiográficos dos smartwatches foram também analisados por um médico , sem incluir a informação dos algoritmos automáticos. Neste caso, foi possível a análise médica de todos os traçados, incluindo os inconclusivos, e em 99% dos casos conseguiu-se estabelecer um diagnóstico com base na análise dos traçados. Os participantes no estudo responderam ainda a um questionário sobre o conforto, facilidade de utilização, e outras características dos smartwatches que usaram. O Apple Watch 6 foi o preferido em 39% dos casos, com os restantes participantes divididos, de igual forma, entre os restantes dispositivos. As conclusões Os resultados obtidos permitiram concluir que estes smartwatches foram úteis para detetar fibrilhação auricular na população estudada. Quando são excluídos os traçados inconclusivos, que surgem em 20% das ocasiões, a acuidade diagnóstica dos dispositivos é muito elevada. A revisão dos traçados eletrocardiográficos dos smartwatches, pelo médico responsável, permite, em 99% dos casos, confirmar ou excluir a presença de fibrilhação auricular. Por isso, se o seu smartwatch indicar que tem fibrilhação auricular, aconselhe-se junto do seu médico, pois podem ser necessárias investigações adicionais. Fontes Dagher L, Shi H, Zhao Y, Marrouche NF. Wearables in cardiology: Here to stay. Hearth Rhythm 2020;17:889-95. Mannhart D, Lischer M, Knecht S, et al. Clinical validation of 5 direct-to-consumer wearable smart devices to detect atrial fibrillation: BASEL Wearable Study. JACC Clin Electrophysiol 2023;9:232-42. Autor: José Ferreira Santos Conheça a equipa clínica de cardiologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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