Possivelmente a última coisa sobre a qual quer ouvir falar é a COVID! No entanto, com mais de 770 milhões de casos reportados globalmente até ao momento e com uma tendência crescente, é um problema que está longe de terminar . Por isso, conhecer as implicações que a COVID pode ter no risco de doença cardiovascular e saber como preveni-las é fundamental! Com o que sabemos quando já passaram mais de 3 anos sobre o início da pandemia, há pelo menos 3 mensagens a reter sobre a COVID: Não desapareceu, parece ter vindo para ficar ; Aumenta o risco de complicações cardiovasculares ; A vacinação contra a COVID é a melhor forma de prevenir complicações . A COVID veio para ficar A COVID, isto é infeção provocada pelo SARS-Cov-2, continuará a fazer parte do nosso dia-a-dia e muito dificilmente a doença será erradicada. O número de casos poderá variar de acordo com a época do ano e região do globo, mas à semelhança do que se verifica para outras infeções virais, como é o caso da gripe, teremos de aprender a conviver com a COVID nos anos vindouros! Na maioria dos casos a COVID resulta em sintomas ligeiros e até 50% dos doentes infetados podem nem ter sintomas. Uma pequena percentagem de casos pode desenvolver complicações graves, com necessidade de internamento hospitalar. Estima-se que em populações não vacinadas, a mortalidade possa variar entre 2%-5%. Há grupos com maior risco: Os idosos , nomeadamente a faixa etária acima dos 80 anos na qual a mortalidade pode ser 20 vezes superior à dos doentes com menos de 60 anos. Os doentes crónicos - doenças cardíacas, respiratórias, diabetes, obesidade, entre outras – em que o risco de complicações da infeção pelo SARS-Cov-2. Estes grupos de risco devem estar particularmente atentos às medidas de prevenção, incluindo a utilização de máscaras, a lavagem frequente das mãos e a incontornável vacinação. A COVID aumenta o risco de complicações cardiovasculares Sabemos hoje que a COVID-19 é um fator de risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular . A infeção por SARS-CoV-2 pode provocar complicações na fase aguda ou crónica da doença, através de diferentes mecanismos. Por um lado, o vírus, pode afetar diretamente o coração e provocar miocardite, ou seja, infeção e inflamação do músculo cardíaco, que pode resultar em insuficiência cardíaca e arritmias. Por outro lado, a reação inflamatória sistémica provocada pelo vírus pode provocar lesão dos vasos sanguíneos e formação generalizada de coágulos, aumentando o risco de embolia pulmonar e de enfarte agudo do miocárdio. Quanto mais grave for a infeção COVID, maior o risco de complicações cardiovasculares! Além disso, pessoas com doença cardíaca pré-existente estão também em maior risco de terem uma infeção mais grave! Após a infeção aguda, os sintomas persistentes, atribuídos à COVID longa, podem também dever-se ao agravamento de uma doença cardíaca preexistente ou ao desenvolvimento de novas manifestações cardiovasculares. Estima-se que nos doze meses após a infeção aguda, o risco de eventos cardiovasculares aumenta 50-60% , pelo que o controle e a vigilância dos fatores de risco e de qualquer doença cardíaca existente são fundamentais para minimizar as possíveis complicações! A vacinação contra a COVID é a melhor forma de prevenir complicações Tal como acontece com a gripe , para a qual está bem estabelecido que a vacinação previne e reduz a gravidade da infeção, bem como as possíveis complicações graves e fatais da doença, também no caso da COVID, a vacinação é hoje a melhor forma de nos protegermos ! Dependendo do tipo de vacina, a eficácia contra a infeção por SARS-Cov-2 pode ser superior a 80% nos primeiros meses após a administração das primeiras doses. Sabemos que a eficácia da vacina vai diminuindo com o passar do tempo depois da vacinação e daí a importância da revacinação anual. Têm sido reportados alguns efeitos secundários da vacina a nível do coração, incluindo miocardite e de pericardite. Estes casos ocorrem em 1 a 10 pessoas por cada milhão de vacinas administradas e pensa-se que estão relacionados com a reação imunológica do organismo. Os casos reportados ocorreram predominantemente em jovens, entre os 12-17 anos e na maioria são autolimitados e com evolução benigna. Como já referido, a COVID também está a associada a complicações de miocardite e pericardite No entanto, neste caso, o risco é 2-5 vezes superior ao risco das mesmas complicações associadas com a vacina. E, na dúvida, a vacina tem sempre um risco inferior ao da própria doença ! De uma forma geral, a vacinação contra a COVID tem-se demonstrado segura e foi o fator decisivo para podermos retomar uma vida normal! No caso das pessoas com doença cardiovascular já estabelecida, o risco de complicações após a COVID é superior . Também neste grupo, a vacinação demonstrou reduzir o risco de enfarte agudo do miocárdio e de acidente vascular cerebral, pelo que não devem existir dúvidas sobre o benefício acrescido também nesta população de doentes ! Fontes Akhtar Z, Trent M, Moa A, et al. The impact of COVID-19 and COVID vaccination on cardiovascular outcomes. Eur Heart J Suppl 2023;25:A42-9. WHO Coronavirus (COVID-19) Dashboard . World Health Organization. Wu Z, McGoogan JM. Characteristics of and important lessons from the coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak in China: summary of a report of 72 314 cases from the Chinese center for disease control and prevention. JAMA 2020;323:1239-1242. Autor : José Ferreira Santos Conheça a equipa clínica de cardiologia da rede Hospital da Luz Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.