Há cada vez mais adeptos de regimes alimentares como o vegetarianismo e o veganismo, o que tem benefícios, por um lado, mas, por outro lado, coloca desafios significativos a pessoas com alergias alimentares. “A soja, por exemplo, é o alergénio mais difícil de evitar numa dieta vegana, pois está presente em mais de 60% dos produtos plant-based processados; e há ainda as leguminosas, os frutos de casca rija, o sésamo e o trigo, que são pilares das dietas veganas e têm também elevado potencial alérgico”, explicou Daniela Brandão Abreu , um dos muitos médicos especialistas que vieram ao 6.º Congresso de Imunoalergologia do Hospital da Luz, a 22 de maio, partilhar experiências, preocupações e orientações sobre a melhor forma de diagnosticar, tratar e acompanhar as doenças alérgicas em crianças, que este ano foram o tema central do encontro. “As doenças alérgicas têm elevada prevalência, muitas vezes com apresentação clínica complexa e grave, exigindo uma abordagem cada vez mais diferenciada e atualizada”, explica Luís Miguel Borrego , diretor do Centro de Alergia e Imunidade do Hospital da Luz Lisboa, que presidiu ao congresso. Daniel Machado Oliveira (ULS do Alto Minho), por exemplo, falou dos bons resultados obtidos pelos protocolos clínicos adotado pela sua equipa em casos de crianças picadas por vespas e abelhas. A alergia ao veneno destes insetos é a segunda causa de anafilaxia (a alergia mais grave e potencialmente fatal) na infância, logo após a alergia alimentar. “A imunoterapia é a única terapêutica modificadora da doença, com potencial comprovado para induzir tolerância imunológica duradoura e salvar vidas”, explicou. Já Ângela Gaspar , coordenadora do Hospital de Dia de Imunoalergologia do Hospital da Luz Lisboa, descreveu como funciona este serviço – nomeadamente, as estratégias terapêuticas, os protocolos e os resultados dos processos de dessensibilização dos doentes a alimentos, que aqui são realizadas. O objetivo é “modificar a história natural da doença”, o que exige ambiente hospitalar, uma equipa dedicada, disponível 24 horas e com capacidade de resposta rápida. Os resultados são animadores: por exemplo, em 33 crianças que aqui realizaram dessensibilização ao leite, 31 conseguiram “negativar”. A influência do digital/redes sociais e da Inteligência Artificial (IA) na doença alérgica foram os temas das conferências dos dois oradores convidados deste ano. Sofia Campina explicou como o maior efeito adverso das redes sociais na alergologia “é a dieta restritiva aleatória” (por exemplo: evitar dar amendoim à criança até muito tarde, devido a “narrativas de medo adquiridas online”, aumentando a prevalência de alergia) e a “não adesão à terapêutica farmacológica validada” (recusa em dar corticosteroides inalados a criança com asma, por exemplo, por desinformação sobre toxicidade). O médico tem de agir junto dos doentes /famílias, esclarecendo e ‘conquistando-os’ para uma decisão terapêutica bem informada. “Não sejamos avestruzes, mas também não nos atiremos de cabeça” , salientou João Almeida Fonseca (CUF Porto, Universidade do Porto), que pôs o auditório a refletir sobre as oportunidades que a IA abre na abordagem das doenças alérgicas nas crianças. A IA é uma ferramenta poderosa que pode ser usada para apoiar um diagnóstico mais preciso e uma terapêutica mais personalizada também em imunoalergologia, mas ainda há caminho a percorrer, acrescentou. ‘Um congresso que reforça a imunoalergologia nacional’ Falou-se ainda das alergias respiratórias mais comuns em crianças (a asma e a rinite alérgica), de alergias graves e complexas e das relacionadas com os antibióticos mais usados na infância. Foi um dia repleto de informação e de partilha de experiências que contribuirá certamente para tornar melhor a prática clínica. Mário Morais de Almeida, atual presidente da World Allergy Organization (WAO), não pôde estar presente no congresso, mas fez questão de enviar uma mensagem de “saudação e reconhecimento”, que foi lida na sessão de abertura. “O congresso de Imunoalergologia do Hospital da Luz afirma-se já como um momento relevante desta especialidade a nível nacional, não apenas pela qualidade científica do programa, mas também pela forma como traduz uma visão moderna da especialidade: integrada, transversal, centrada no doente e aberta ao diálogo” com outras áreas. “A doença alérgica pediátrica é hoje mais prevalente e mais exigente, obriga-nos a preparar, a educar e a responder melhor. A imunoalergologia portuguesa tem muito com que se orgulhar e iniciativas como esta reforçam o seu lugar e a sua projeção internacional”, acrescentou. “É com muita satisfação e entusiasmo que realizamos mais uma edição deste congresso. Aqui valorizamos não apenas a atividade assistencial, mas também a formação e o ensino, procurando estar sempre na vanguarda da investigação. E o tema deste congresso não podia ser mais atual”, afirmou Rui Maio , diretor clínico do Hospital da Luz Lisboa. Tal como noutras edições, houve um concurso de trabalhos científicos. Os vencedores foram Tomás Duarte de Almeida – 1.º prémio pelo poster intitulado “Alergia a veneno de himenópteros em idade pediátrica - A imunoterapia como estratégia protetora” – e Claúdia Monteiro Marques, que recebeu o 2.º prémio, pelo trabalho que tem por título “Eficácia da imunoterapia oral ao leite de vaca e segurança a longo prazo”. O Hospital da Luz agradece a todos os participantes, oradores e patrocinadores deste congresso. Juntos, melhoramos os cuidados de saúde prestados aos nossos doentes. O Congresso Nacional de Imunoalergologia do Hospital da Luz volta em 2028! Na foto, os membros da comissão organizadora: Inês Gonçalves Nunes , Leonor Paulos Viegas , Susana Piedade , Cláudia Marques e Luís Miguel Borrego.