“Hoje, não basta saber escolher a técnica para retirar o tumor e saber preservar as margens de segurança durante a cirurgia, é preciso operar tendo em conta diferentes variáveis em jogo, como as possibilidades de preservação do órgão, os tratamentos que o doente fará e a qualidade de vida pós-operatória. O doente não quer só sobreviver, quer viver com a maior qualidade de vida possível”, destacou Rui Maio , diretor clínico do Hospital da Luz Lisboa, na abertura do 5.º Congresso Nacional de Cirurgia do Hospital da Luz. Por isso, concluiu, “o doente tem de estar sempre no centro da nossa atividade e nenhuma tecnologia terá interesse se não servir o doente”. Ao longo de dois dias (25 e 26 de setembro), especialistas nacionais e estrangeiros discutiram a abordagem cirúrgica do cancro gastrointestinal (estômago, cólon e reto, pâncreas, esófago, junção esófago-gástrica e fígado) e a melhor forma de tratar os respetivos doentes. O programa desenvolveu-se em torno da experiência do Hospital da Luz nestas doenças, com apresentação de casos clínicos, desde os mais comuns aos mais complexos, critérios e metodologias usadas pelas equipas multidisciplinares no seu tratamento e os resultados obtidos. As mesas-redondas temáticas foram, por isso, constituídas não apenas por cirurgiões gerais, mas também por gastrenterologistas, radiologistas e anatomopatologistas: Alexandre Ferreira , Ana Faria , Catarina Fidalgo , Catarina Pulido , Diogo Albergaria , Fábio Cassiano Lopes , Joana Albuquerque , Joana Nunes , Jorge Paulino , José António Pereira , Luís Mascarenhas de Lemos , Luís Semedo , Marília Cravo , Miguel Ramalho , Susana Ourô e Rui Maio. Definir as competências do cirurgião e as da máquina “No nosso hospital, nenhum doente com cancro é tratado sem o seu caso ser avaliado e discutido em consulta multidisciplinar, com a participação de médicos das várias especialidades que vão ter de intervir”, frisou Rui Maio, adiantando, a propósito, que o ‘peso’ do cancro gastrointestinal no total destas consultas é de cerca de 24%. Este modelo de tratamento do cancro “beneficia não só os doentes como também o trabalho dos profissionais de saúde”, testemunhou Anisabel Soares, enfermeira responsável do Hospital da Luz Lisboa. Isabel Vaz, CEO da Luz Saúde, interveniente na sessão de abertura, trouxe para o campo da cirurgia o ‘tema quente’ da atualidade, nomeadamente, o dos limites dos avanços da tecnologia. “Os limites são os que nós quisermos impor. Estamos atualmente confrontados com o desafio de definir o que é o cirurgião, o que é competência do cirurgião e o que cabe à máquina”, afirmou, tendo apontado o caminho: “Neste desafio, temos de nos agarrar aos valores fundacionais da Medicina e o papel da gestão é estar ao lado dos médicos para que, juntos, tenhamos sempre o doente no centro da nossa atividade. Porque há uma coisa que a tecnologia garantidamente não trata: o coração e a alma do ser humano” . O doente oncológico “é hoje um doente crónico complexo” e, portanto, “a cirurgia vai muito além dos resultados imediatos”, destacou ainda. Os debates deste congresso foram dinamizados a partir da apresentação de casos clínicos de doentes do Hospital da Luz. Além de uma reflexão sobre as opções seguidas a nível de terapias e de técnicas cirúrgicas, estiveram em destaque temas como as vantagens da cirurgia robótica e minimamente invasiva e o programa ERAS® (Enhanced Recovery After Surgery), que é um programa de abordagem multidisciplinar a doentes cirúrgicos, em que o Hospital da Luz Lisboa é referência internacional, que permite melhorar os cuidados perioperatórios (antes, durante, depois da cirurgia e a alta hospitalar) e, assim, conseguir uma melhor recuperação do doente. As mais recentes mudanças e avanços no tratamento do cancro gástrico e esofágico, cólon e reto, fígado, pâncreas e vias biliares foram os temas das conferências proferidas por convidados nacionais e estrangeiros: Maria Bencivenga (Hospital-Universidade de Verona, Itália), Rita Barroca (Hospital Lusíadas), Nelson J. Silva (coordenador da Unidade de Cancro Colorretal do Hospital Cuf Tejo), Thilo Welsch (Hospital Universitário de Frankfurt, um dos cirurgiões mais conceituados da Alemanha na atualidade) e Benedetto Ielpo (Unidade Hepatobiliopancreática do Hospital del Mar, Barcelona, uma das grandes referências europeias em inovação cirúrgica). O Hospital da Luz agradece a todos os participantes, patrocinadores e formadores deste congresso, que estará de volta em 2027. Na foto em baixo, os elementos da comissão organizadora e da comissão científica: João Correia , Constança Marques , Carlota Branco , Rui Maio , Catarina Palma e Joana Soares .