Atualizado em 6 de agosto de 2024 Autor : João Gama Marques O que são canabinoides? Os canabinoides são um grupo de substâncias derivadas das três espécies de planta do género Cannabis : sativa, indica e ruderalis. Há centenas de canabinoides descritos na literatura especializada, mas os mais conhecidos são o tetra-hidro-canabinol (THC) e o cana-bi-diol (CBD). Em geral o THC é considerado mais nocivo para a saúde mental do que o CBD, mais benigno. As espécies conhecidas de Cannabis estão dispersas por várias zonas do mundo, e quando são processadas, dão origem a três tipos de produtos: Canábis, também conhecida como erva, marijuana, cânhamo, liamba, maconha, seruma, entre outras designações; Haxixe, também conhecido como chamon, bolota, chito, ganza, entre outras designações; Óleo. Estes produtos, que podem ser ingeridos em alimentos (por exemplo os space cakes ), ou fumados, com ou sem tabaco, na forma de cigarro (charro ou canhão), ou em vários tipos de cachimbo, são habitualmente incluídos no grupo das drogas leves . Drogas leves porque, alegadamente, têm menos efeitos do que as chamadas drogas duras. No entanto, esta noção está longe de ser verdadeira. Em muitas pessoas, os canabinoides podem ter efeitos prejudiciais à saúde , contribuindo para o desencadear ou agravar de perturbação mental e deterioração psicossocial. Quais são os efeitos do consumo dos canabinoides? O consumo de canabinoides é justificado pelos seus efeitos psicoativos , mais frequentemente, por provocar uma sensação de bem-estar, ataraxia, centralização em si próprio e afastamento do mundo exterior. Os efeitos psicoativos dos canabinoides no sistema nervoso central dão-se inicialmente ao nível dos respetivos recetores neuronais (CB1 e CB2), com complexas repercussões em vários sistemas de neurotransmissores e áreas encefálicas que se refletem efetivamente ao nível de: Humor: euforia, irritabilidade ou depressão; Afetos: exagero ou embotamento; Perceção: ilusões ou alucinações; Pensamento: ideias hipervalorizadas, desorganizadas ou delírios; Iniciativa: agressividade ou síndrome de adinamia; Cognição: défices de memória e raciocínio; Motricidade: descoordenação; Libido: diminuição ou desinibição; Apetite: aumento ( munchies ) ou náuseas (síndrome de hiperemese canábica); Sono: sonolência ou hipersónia. Os efeitos do consumo de canabinoides não são iguais em todas as pessoas. Variam essencialmente com: A vulnerabilidade genética de cada um; A quantidade consumida; A frequência de consumo; A qualidade do produto consumido. Consequências do consumo de canabinóides Acontecem com frequência alterações da vivência do eu, desde a despersonalização e/ou desrealização (sensação de perda do real) até estados psicótico com alucinações (falsas perceções sem objeto) e delírios (crenças inabaláveis sem lógica). Os canabinoides quando consumidos em doses elevadas, por períodos prolongados e/ou na forma de produtos altamente concentrados podem, mesmo em pessoas em que não seja óbvia uma vulnerabilidade genética, contribuir para o aparecimento ou agravamento de várias perturbações mentais como: Depressão; Esquizofrenia; Toxicodependência; Perturbação de pânico; Psicose tóxica canábica; Perturbação afectiva bipolar; Perturbação de personalidade. Além disso, os canabinoides são reconhecidos como porta de entrada (fenómeno gateway ) para o abuso e/ou dependência de outras drogas extremamente prejudiciais - álcool, nicotina, anfetamina, cocaína, quetamina, fenciclidina, heroína (entre outras) - aumentando o risco de deterioração psicossocial. Como exemplos de deterioração psicossocial são de destacar: Adolescente que começa com isolamento social e/ou quebra do rendimento escolar; Jovem adulto que começa a ter problemas conjugais, familiares e/ou profissionais; Adulto quase idoso que se desorganiza e fica em situação de sem-abrigo. São raros os casos semelhantes aos descritos em que os canabinoides não tenham contribuído, numa determinada fase da vida, para a referida deterioração psicossocial. Ao contrário do que muitos consumidores alegam, fumar canabinóides implica também todos os riscos para a saúde bem conhecidos no que diz respeito a: Doenças respiratórias, como doença pulmonar obstrutiva crónica, ou cancro do pulmão; Doenças cardiovasculares, como enfarte agudo do miocárdio, ou acidente vascular cerebral. E a utilização terapêutica dos canabinoides? Finalmente uma questão muito polémica. Há anos que se arrastam estudos de investigação científica e promessas no mercado para que um dia os canabinoides com supostas propriedades terapêuticas, possam ser comercializado com fins terapêuticos. As promessas têm-se acumulado ao nível de doenças como o glaucoma, a esclerose múltipla, e até alguns tipos de epilepsia e cancro. No entanto, estamos ainda muito longe dessa realidade, especialmente quando falamos de produtos traficados na rua, cuja composição e percentagem de THC e CBD não são de todo conhecidas nem controladas por nenhuma entidade oficial. Conheça a equipa clínica de psiquiatria da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.