27 de maio de 2020 Autor : Pedro Silva Carvalho Os quadros demenciais são um problema médico e social com uma importância crescente. Ocorrem em todas as idades, mas são mais relevantes nas faixas etárias mais avançadas. Afetam cerca de 1% da população com mais de 65 anos de idade e a cada 5 anos este valor mais do que duplica. Num relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) de 2017, relativo a prevalência da demência, Portugal é referido como o quarto país com mais casos por 1000 habitantes . Sendo a média dos países da OCDE de 14,8 casos em cada 1000 habitantes, em Portugal a estimativa é de 19,9 casos. De acordo com este relatório, existiriam na altura 205 mil pessoas com demência em Portugal , valor que se estima vir a ser de 322 mil até 2037. Como se apresentam as demências? Globalmente, a característica comum nas demências são as falhas de memória (disfunção cognitiva), que causam um declínio funcional progressivo. No entanto, as falhas de memória podem ter outras causas que não demências e até ser reversíveis. No caso das demências, há alterações mais ou menos específicas. Os quadros demenciais são uma síndrome (conjunto de sintomas) que pode ser causada ou caracterizada por múltiplos défices cognitivos. Incluem as falhas de memória e pelo menos um dos seguintes sintomas: Afasia: perturbação da formulação e compreensão da linguagem; Apraxia: perda da capacidade em executar movimentos e gestos precisos que conduziriam a um dado objetivo, apesar de haver vontade a capacidade física para os executar; Agnosia: perda ou deterioração da capacidade para reconhecer ou identificar objetos, apesar da função sensorial estar intacta, ou inibição da função de execução. Com o tempo, nos quadros demenciais as funções social e ocupacional também são afetadas. Os sintomas e sinais inicias de demência são muitas vezes subtis e vagos e podem não ser imediatamente óbvios. Além da falha de memória frequente e progressiva, os mais habituais são alterações da personalidade, apatia e isolamento, perda de capacidades para a execução das tarefas diárias e confusão. Algumas demências podem ter relação hereditária, mas a maioria não tem. Quais são as doenças em que há falhas de memória? Várias doenças ou quadros clínicos podem estar associados a problemas de memória . Os mais frequentes são: Doenças cerebrais degenerativas, como a demência Alzheimer, demência de corpos de Lewy, demência de Parkinson e demência fronto-temporal; Demência vascular; Demência relacionada com álcool (síndrome de Korsakoff); Tumores intracranianos; Hidrocefalia de pressão normal; Coreia de Huntington; Intoxicação crónica por alguns fármacos; Doenças mistas, por exemplo falência hepática, anemia perniciosa, hipotiroidismo, neurosífilis, doença de Cushing, doença de Creutzfeldt Jakob, esclerose múltipla, epilepsia, entre outras; Traumatismo crânio-encefálico; Complexo demencial da SIDA (síndrome de imunodeficiência adquirida); Pseudodemência (quadros depressivos com défice cognitivo); Quadros ansiosos; Défice de vitaminas. Estes diferentes quadros clínicos podem ocorrer simultaneamente. As falhas de memória associadas a quadros depressivos, algumas carências vitamínicas e hormonais, processos infeciosos, sobredosagem medicamentosas, tumores cerebrais, entre outros, são na maioria dos casos são reversíveis, ou seja, se forem tratados os sintomas geralmente desaparecem. Quais são as demências mais comuns? Demência de Alzheimer A demência de Alzheimer representa cerca de 60% de todos os casos. Instala-se gradualmente, ao longo de anos, em que ocorre um processo degenerativo que afeta o cérebro. As conexões existentes entre as células cerebrais são danificadas, e as células nervosas vão sofrendo uma redução, em tamanho e número, formando-se tranças neurofibrilhares no seu interior e placas senis no espaço exterior existente entre elas. As células acabam por morrer, afetando as várias áreas cerebrais, perdendo-se funções ou capacidades, nomeadamente a memória. Demência vascular A demência vascular é o segundo tipo mais comum de demência. Está relacionada com alterações de circulação do sangue no cérebro. Há vários tipos, o mais comum é a demência por multienfartes. Habitualmente ocorre quando existem vários fatores de risco prévio como hipertensão, hipercolesterolemia, diabetes, entre outros. A demência vascular pode ter uma apresentação semelhante à doença de Alzheimer, embora com uma deterioração com marcos temporais retrospetivamente identificáveis. Em algumas pessoas ocorre um quadro combinado destes dois tipos: demência vascular e de Alzheimer. Doença de Parkinson A doença de Parkinson é uma perturbação progressiva do sistema nervoso central, caraterizada por tremor, rigidez nos membros e articulações, alterações na fala e dificuldade na iniciação dos movimentos. A demência pode ocorrer em algumas pessoas, numa fase mais avançada da doença. Demência de corpos de Lewy A demência de corpos de Lewy é causada pela degeneração e morte das células cerebrais, onde se desenvolvem estruturas esféricas anormais (corpos de Lewy). Frequentemente ocorrem alucinações visuais, rigidez ou tremores, com oscilações rápidas. Por vezes é difícil a distinção com demência de Parkinson. Ocorre frequentemente uma hipersensibilidade a antipsicóticos e benzodiazepinas. Demência fronto-temporal Demência fronto-temporal é o nome dado a um grupo demências em que existe a degeneração de um ou de ambos os lobos cerebrais frontal ou temporal. Inclui a demência fronto-temporal, a demência semântica, a afasia progressiva não-fluente e a doença de Pick. Num número elevado de casos há história familiar da doença. A demência fronto-temporal é um dos quadros demenciais o de instalação mais precoce. Pode ter um início menos relevante em termos de memória e mais no comportamento, em que a puerilidade é relevante. Demência provocada pelo álcool (síndrome de Korsakoff) O consumo excessivo de álcool, particularmente se estiver associado a uma dieta pobre em vitamina B1 (tiamina) pode levar a danos cerebrais irreversíveis. As regiões cerebrais mais vulneráveis são as implicadas na memória, organização, planeamento, competências sociais, discernimento e equilíbrio. A abordagem inclui suspensão/redução de consumo de álcool e a toma de vitamina B1 (tiamina). Sintomas comportamentais e psicológicos da demência Incluem-se no conjunto dos sintomas comportamentais e psicológicos da demência um conjunto de alterações cuja prevalência é elevada na evolução clínica dos quadros demenciais, da ordem de 75% dos doentes. Estas alterações justificam em muitos dos casos de recurso a psicogeriatra ou psiquiatria e estão relacionadas com uma evolução clínica mais desfavorável a nível de sobrevida, maior sobrecarga do cuidador e maior incidência de institucionalização, entre outros fatores. O espetro das manifestações neuropsiquiátricas nos doentes com demência pode ser dividido em três grupos: Síndrome afetiva; Síndrome psicótica; Outros distúrbios neuropsiquiátricos. Os sinais mais frequentes são apatia, depressão, agitação e agressividade. É fundamental que o diagnóstico médico dos quadros com os sintomas atrás referidos, fundamentalmente as falhas de memória, seja realizado quando os primeiros sinais ou sintomas aparecem , de modo a garantir um tratamento precoce e correto. O tratamento precoce permite uma melhor condução clínica do caso , diminuindo o sofrimento para o doente e seus cuidadores. Se os sintomas forem causados por uma demência, o diagnóstico precoce possibilita o acesso mais cedo a apoio, informação e medicação. Em muitos quadros demenciais o objetivo do tratamento é atrasar o processo evolutivo e melhorar sintomas comportamentais e psicológicos , uma vez que não têm cura. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.