3 de setembro de 2026 Autor : Saraiva da Cunha (doenças infecciosas) A equinococose é uma zoonose parasitária causada por ténias do género Echinococcus . A doença humana tem várias formas e as mais importantes são causadas pelas larvas de duas espécies do parasita: O Echinococcus granulosus, que causa a forma quística; O Echinococcus multilocularis, que causa a forma alveolar. A forma quística, também designada equinococose quística ou hidatidose é a mais frequente. Os quistos que se formam nos órgãos afetados, principalmente no fígado e nos pulmões, designam-se quistos hidáticos e são a principal manifestação da hidatidose. Em Portugal, a equinococose é uma doença de notificação obrigatória, pelo que os casos diagnosticados devem ser comunicados às autoridades de saúde com a finalidade de vigilância epidemiológica e controlo da doença. Transmissão da equinococose O ciclo de vida do Echinococcus envolve principalmente carnívoros, que são hospedeiros definitivos, e herbívoros e omnívoros, que são hospedeiros intermediários. O parasita adulto vive no intestino dos carnívoros, por exemplo os cães e as raposas, que eliminam os ovos nas fezes e que podem contaminar o solo, água e alimentos. Quando estes ovos são ingeridos, por exemplo por ovinos, caprinos, bovinos ou suínos, eclodem no intestino, as larvas formadas atravessam a parede intestinal e migram para os órgãos, principalmente o fígado e os pulmões, formando quistos. O ciclo de vida do parasita completa-se quando os carnívoros ingerem vísceras cruas, com quistos, desses animais. O homem não faz parte do ciclo de vida natural do Echinococcus , é um hospedeiro acidental, desenvolve doença, mas não a transmite a outras pessoas nem perpetua o ciclo do parasita . A proximidade com as espécies envolvidas no ciclo de vida, particularmente quando associada a condições de higiene deficientes e ausência de controlo da doença nos animais favorece a infeção. A infeção ocorre através da ingestão de ovos microscópicos do parasita , eliminados nas fezes de cães e outros carnívoros infetados, que podem contaminar as mãos, a água, os alimentos ou outros objetos e superfícies do ambiente. Por exemplo, os cães parasitados também podem espalhar ovos na sua pelagem quando se lambem, que depois pode representar a fonte de infeção. No intestino humano os ovos eclodem e as larvas atravessam a parede intestinal, entram em circulação e atingem outros órgãos. Sintomas e diagnóstico Equinococose quística ou hidatidose A infeção por Echinococcus granulosus leva, na maioria dos casos, ao crescimento, muito lento, de um ou mais quistos hidáticos nos órgãos , principalmente no fígado e pulmões. Podem passar muitos anos, mesmo décadas, entre a infeção e os quistos crescerem e desencadearem sintomas, por exemplo dor abdominal, icterícia, náuseas e vómitos no caso dos quistos no fígado, ou tosse, dor no peito e dificuldade respiratória no caso dos quistos nos pulmões. Além dos sintomas associados à localização dos quistos e ao seu impacto nos tecidos envolventes, a hidatidose também pode ser causa de falta de apetite, perda de peso e debilidade geral. O diagnóstico baseia-se principalmente em exames de imagem (ecografia, TAC e RMN) e podem também ser realizados testes laboratoriais para detetar anticorpos contra o parasita. Em muitos casos, o diagnóstico é acidental, durante exames realizados por outros motivos . A doença é considerada potencialmente grave, por exemplo se um quisto romper ou sobreinfetar, mas curável em países com fácil acesso a cuidados médicos. Equinococose alveolar A equinococose alveolar é mais rara, mas é a forma mais grave da doença. A infeção por Echinococcus multilocularis também tem um período de incubação prolongado, entre 5-15 anos. Caracteriza-se por um crescimento lento e invasivo de uma lesão semelhante a um tumor, geralmente no fígado, com sintomas como perda de peso, dor abdominal, mal-estar geral e sinais de insuficiência hepática, e que pode invadir outros órgãos e tecidos. Tratamento da equinococose A equinococose é uma doença com um tratamento dispendioso, complicado e frequentemente prolongado . No caso da hidatidose, pode incluir cirurgia, punção e aspiração dos quistos e tratamento com medicamentos antiparasitários. A mortalidade associada a esta forma da doença é baixa nos países com acesso a diagnóstico e tratamento, sendo atualmente considerada uma doença potencialmente grave, mas frequentemente curável. Quanto à equinococose alveolar, o diagnóstico precoce é fundamental para conter a lesão por cirurgia. Quando não é tratada, mais de 90% dos doentes podem morrer 10-15 anos depois do diagnóstico. Prevenção da equinococose A prevenção da equinococose baseia-se em medidas que interrompam o ciclo de vida do parasita e evitem o contacto humano com os seus ovos. As principais são: Desparasitar os cães regularmente , de acordo com as indicações do médico-veterinário. Não alimentar cães ou outros carnívoros com vísceras cruas e, particularmente em zonas agrícolas, impedir que tenham acesso a cadáveres de outros animais. Não consumir carne e outros alimentos de origem animal que não tenham sido submetidos aos procedimentos habituais de inspeção sanitária médico-veterinária. Lavar as mãos regularmente e sempre antes de comer e depois de mexer em animais, terra, ou ambientes que possam estar contaminados. Manter regras de higiene adequadas no contacto com os cães , por exemplo não se deixar lamber na cara. Lavar bem todos os frutos e legumes consumidos crus. Não beber água não tratada ou de origem desconhecida . Alguns dados A equinococose humana é mais frequente em zonas rurais associadas à criação de espécies pecuárias e a pastoreio . A forma quística existe em todo o mundo exceto na Antártida, enquanto a equinococose alveolar existe apenas no hemisfério norte. A Organização Mundial da Saúde considera a equinococose uma doença tropical negligenciada e estima que estejam infetadas mais de um milhão de pessoas em todo o mundo. Na Europa, os casos são relativamente raros, mas continuam a ocorrer, sobretudo em países mediterrânicos e da Europa Central e Oriental (os Balcãs são hoje considerados o epicentro da doença). Entre 2010 e 2024 foram reportados anualmente na União Europeia cerca de 800-900 casos de equinococose. Nos anos da pandemia o número de casos reportados diminuiu, e em 2024 atingiu o maior valor: 984 casos dos quais 478 por Echinococcus granulosus e 282 por Echinococcus multilocularis. No mesmo ano a doença motivou 193 internamentos e registaram-se 3 mortes. Em Portugal, a doença é pouco frequente e a sua incidência tem vindo a diminuir, embora continue a ser diagnosticada ocasionalmente , tendo sido reportados em 2024 quatro casos e um internamento. Entre 1997 e 2021 foram registados 502 casos, uma média de 20 casos por ano. Os imigrantes provenientes de países em que a doença tem elevada prevalência merecem particular atenção. Além dos problemas para a saúde humana, a equinococose é causa de perdas económicas significativas para os produtores de espécies pecuárias. A equinococose continua assim a ser um problema de saúde pública e veterinária e pode ser prevenida através de medidas simples de higiene, controlo dos animais e interrupção do ciclo de transmissão do parasita. Fontes Direção Geral de Alimentação e Veterinária. Equinococosse / hidatidose . European Center for Disease Prevention and Control. Echinococcosis . European Center for Disease Prevention and Control. Surveillance Atlas of Infectious Diseases . World Health Organization. Echinococcosis . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.