13 de março de 2019 Quando não está associada a outras doenças, a fissura anal é, na maioria dos casos, uma lesão única e localiza-se na linha média posterior do ânus. Nas mulheres , por razões anatómicas, a localização na linha média anterior é também comum e mais frequente do que nos homens. As fissuras anais podem acontecer em qualquer idade e a sua incidência é semelhante nos homens e nas mulheres. Podem ser agudas (as que aparecem subitamente) ou crónicas (as presentes há algum tempo ou de recorrência frequente). Quais são as causas para a fissura anal? As fissuras anais surgem com frequência em doentes com obstipação e são consequentes ao traumatismo, devido ao esforço durante a defecação e à emissão de fezes duras e volumosas. Podem também surgir em doentes com crises de diarreia de vários episódios diários e em alguns processos inflamatórios da zona anorretal. Apesar das fissuras anais serem causadas principalmente por traumatismos, existem outras causas possíveis , entre as quais, se incluem: O cancro retal; A doença de Crohn; A leucemia; Diversas doenças infecciosas de origem bacteriana e viral. As fissuras anais podem tornar-se crónicas devido ao espasmo ou hipertonia (contração muito forte) das fibras musculares do esfíncter anal. O relaxamento do esfíncter para a passagem das fezes e o retorno à situação de espasmo provocam um afastamento dos bordos da fissura e o seu agravamento. Acresce que, um espasmo permanente do esfíncter cria uma zona de circulação sanguínea insuficiente na mucosa que o recobre. Desta forma, o afastamento dos bordos da fissura e a zona de circulação sanguínea insuficiente são os 2 principais fatores que impedem a cicatrização . Quais são os sintomas da fissura anal? Os sintomas típicos da fissura anal são: Uma dor muito intensa durante a defecação, que se pode manter durante algum tempo depois desta; Uma hemorragia mais ou menos significativa, de sangue vermelho vivo, a cobrir as fezes e/ou presente no papel higiénico. Os doentes podem evitar defecar devido à dor intensa que este ato provoca. No entanto, esta situação conduz, normalmente, à formação de fezes duras e volumosas. A eliminação dessas fezes agravará a fissura , quer diretamente, pelo traumatismo, quer indiretamente, pelo agravamento da dor e do espasmo do esfíncter. Em alguns casos, pode também estar presente prurido anal e um corrimento fétido. Como se realiza o diagnóstico da fissura anal? O diagnóstico da fissura anal é feito com base: Na história clínica do doente; Nos sintomas presentes; Na observação da região anal. As fissuras anais com uma localização diferente da linha média e a persistência dos sintomas implicam um exame mais aprofundado . Este é realizado sob anestesia geral , dado que, também existem doenças em que ocorrem fissuras anais e/ou se manifestam sintomas semelhantes aos destas. Como se tratam as fissuras anais? Muitas vezes, as fissuras anais cicatrizam espontaneamente . Em outros casos, é necessário um tratamento médico e, por vezes, um tratamento cirúrgico . Em cerca de 80% a 90% dos casos, as fissuras agudas podem ser objeto apenas de um tratamento médico . Já no caso de fissuras crónicas , estima-se que apenas em 40% dos casos este tratamento tenha sucesso . O tratamento médico visa: Regularizar o trânsito intestinal; Relaxar o esfíncter anal; Diminuir a dor; Promover a cicatrização. No caso de fissuras que não respondem ao tratamento médico, mantendo-se a dor e/ou hemorragia, assim como, nas fissuras recorrentes, deve ser ponderada a realização de um tratamento cirúrgico. Habitualmente, a cirurgia consiste numa pequena intervenção em que se secciona uma pequena extensão do músculo esfíncter anal interno (esfincterotomia lateral interna). A cirurgia visa diminuir o espasmo do esfíncter e as queixas dolorosas , facilitando a cicatrização da fissura. O corte deste músculo raramente interfere com a capacidade funcional do esfíncter (ou seja, com a sua função de controlo da emissão de gases e fezes). Esta intervenção pode ser realizada em regime ambulatório , isto é, sem o doente ter de passar a noite no hospital. A cicatrização completa demora 3 a 4 semanas , embora a dor desapareça ao fim de alguns dias. Mais de 90% dos doentes submetidos a um tratamento cirúrgico não voltam a ter fissuras anais. Como prevenir o aparecimento da fissura anal? A regularização do trânsito intestinal é uma das medidas mais importantes. Em função da situação presente (obstipação ou diarreia) inclui alterações alimentares que visam a produção de fezes menos duras e mais moldadas (ingestão de uma dieta rica em fibras e aumento da ingestão de líquidos) ou a correção das causas de diarreia. Os banhos de assento com água morna durante 10-20 minutos várias vezes por dia, podem: Ajudar a atenuar a dor; Favorecer o relaxamento do esfíncter anal e a cicatrização. Ocasionalmente, em função da situação presente, poderão ser utilizados cremes, supositórios ou outros, com ação anti-inflamatória ou que contrariem o espasmo muscular. Adicionalmente, as seguintes medidas contribuem também para evitar a ocorrência de fissuras anais: A manutenção da região anal seca; A utilização de papel higiénico macio ou humedecido; O tratamento atempado de problemas de obstipação ou de diarreia. A fissura anal é uma doença da área da coloproctologia, que faz parte da atividade dos gastrenterologistas e dos cirurgiões gerais. Este artigo foi escrito por cirurgiões gerais Rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.