16 de junho de 2021 Autor : Francisco Senra O que é a HIPEC e em que tumores pode ser usada? A HIPEC é a administração de compostos de quimioterapia na cavidade peritoneal, associada a lavagem peritoneal e a temperatura elevada. Os tumores mais frequentemente tratados com HIPEC têm origem: No apêndice; No cólon ou reto; No estômago; No intestino delgado; No ovário, trompas ou peritoneu; Mesoteliomas. No entanto, em casos específicos, pode haver indicação para tratar outro tipo de tumores com HIPEC. A associação de quimioterapia, lavagem peritoneal e temperatura elevada da HIPEC tem um efeito sinergético no tratamento da doença oncológica microscópica peritoneal e complementa a cirurgia de citorredução, ou seja, a cirurgia de remoção da doença peritoneal visível (macroscópica). Peritoneu, carcinomatose peritoneal e mesotelioma O peritoneu é uma membrana que reveste internamente a cavidade abdominal e os órgãos abdominais. Os tumores malignos do peritoneu podem ser: Carcinomatose peritoneal ou metástases peritoneais (a forma mais frequente de apresentação), considerado um tumor secundário, porque tem origem noutros órgãos e se desenvolve depois no peritoneu; Mesotelioma , que é um tumor primário porque tem origem no próprio peritoneu. A maioria dos tumores abdominais pode, ao longo da sua evolução, libertar células para o peritoneu, dando origem à carcinomatose peritoneal. A carcinomatose peritoneal é considerada uma fase terminal da doença oncológica , tem um mau prognóstico e uma expectativa de vida, em geral, inferior a 1 ano. Esta expectativa de vida reduzida está associada: À eficácia limitada da quimioterapia sistémica (administrada por via intravenosa ou oral) no tratamento da carcinomatose peritoneal; Ao desenvolvimento comum de quadros de oclusão intestinal nos doentes com carcinomatose peritoneal, que impedem uma alimentação adequada; A limitações da cirurgia, pois, frequentemente, não é possível a remoção cirúrgica da doença. Mesmo quando esta é exequível, a persistência de células tumorais, que não podem ser identificadas pelo cirurgião durante a cirurgia, está relacionada com a recorrência da carcinomatose peritoneal em poucos meses. Que tumores podem ser tratados com HIPEC? A quimioterapia intraperitoneal hipertérmica é um tratamento com intenção curativa . Está indicada, principalmente, em doentes com carcinomatose peritoneal totalmente ressecável e sem outra doença (extraperitoneal). No entanto, pode também estar indicada se houver doença extraperitoneal que possa ser removida na mesma intervenção ou noutra cirurgia, realizada antes ou depois da cirurgia da HIPEC, com a mesma intenção curativa. A HIPEC está também indicada no tratamento de doença peritoneal em que há produção e acumulação de uma grande quantidade de líquido (ascite) que tem de ser frequentemente retirado. Neste caso, o objetivo é controlar a produção de líquido ascítico e diminuir ou eliminar a necessidade de punções repetidas para o tirar, melhorando assim a qualidade de vida. Alguns estudos sugerem benefícios do uso de HIPEC como tratamento complementar na cirurgia inicial de tumores com grande potencial de virem a desenvolver carcinomatose peritoneal, como é o caso dos carcinomas gástricos. De facto, é conhecido que após a gastrectomia (remoção do estômago) por tumores gástricos não iniciais, há um risco significativo de os doentes desenvolverem metastização (doença fora do estômago), como a carcinomatose peritoneal, nos primeiros anos que se seguem à cirurgia. Esta é a justificação para se administrar quimioterapia sistémica antes da cirurgia de remoção do estômago. Assim, há vários estudos que sugerem o benefício do uso de HIPEC complementarmente à gastrectomia do tumor inicial. No entanto, esta indicação é ainda questão de amplo debate. Como é feita a HIPEC? Os exames de imagem atuais – tomografia computorizada (TAC), ressonância magnética e tomografia por emissão de positrões (PET) – têm limitações na identificação e na avaliação da extensão da carcinomatose peritoneal. Estima-se que a capacidade destes exames para detetar nódulos de carcinomatose peritoneal com menos de 1 cm esteja entre 10%-30%. Assim, a forma mais fiável de avaliar uma carcinomatose peritoneal é a avaliação cirúrgica (exploração abdominal). A HIPEC é feita durante uma cirurgia . A fase inicial da cirurgia de um doente proposto para citorredução e HIPEC é a exploração abdominal; Se a doença peritoneal for considerada ressecável (passível de retirar cirurgicamente) a cirurgia prossegue, com a remoção de toda a doença visível; Terminada esta fase, é iniciada a perfusão de soro à temperatura elevada pretendida; Quando está garantida a homogeneidade e a estabilidade da temperatura em toda a cavidade peritoneal é adicionada a quimioterapia. O tempo de perfusão da quimioterapia varia de acordo com o fármaco utilizado, entre 30 e 90 minutos; Uma vez terminada a perfusão da quimioterapia, a cirurgia é ultimada. Mais frequentemente, os doentes ficam em cuidados intermédios ou intensivos durante 1-3 dias e têm alta ao fim de 8-12 depois da cirurgia. Eficácia da HIPEC Para a eficácia da HIPEC contribuem diversos fatores. O tumor Como em qualquer tratamento com quimioterapia, a eficácia da HIPEC depende da sensibilidade do tumor aos fármacos utilizados. A equipa cirúrgica É o fator humano mais importante para o sucesso do tratamento da carcinomatose peritoneal. Uma equipa cirúrgica experiente e dedicada ao tratamento da carcinomatose peritoneal permite otimizar diversos passos essenciais: Seleção dos doentes que podem beneficiar da cirurgia; Preparação / otimização dos doentes para a cirurgia; Extensa, minuciosa e exaustiva pesquisa de qualquer nódulo de carcinomatose na cavidade peritoneal; Capacidade técnica para remover toda a doença peritoneal, limitando as complicações; Garantia de distribuição uniforme da quimioterapia e da hipertermia por toda a cavidade peritoneal. A administração da quimioterapia Para administração controlada da quimioterapia e da hipertermia na cavidade peritoneal são necessários equipamentos e sistemas de monitorização adequados e também o conhecimento técnico específico de um perfusionista dedicado. Uma equipa médica multidisciplinar Depois de uma cirurgia com HIPEC, os doentes necessitam de uma monitorização contínua e atenta para corrigir desequilíbrios e prevenir complicações. Nesta cirurgia, em particular, além de todos os cuidados já inerentes a uma grande e prolongada cirurgia abdominal, acrescem as alterações decorrentes do uso de quimioterapia e das temperaturas elevadas. Uma estreita colaboração entre o cirurgião e os médicos de cuidados Intensivos é essencial na recuperação do doente e na prevenção de complicações. A cirurgia de citorredução com HIPEC pode ser o tratamento único para alguns doentes. No entanto, geralmente, é necessária a associação de quimioterapia sistémica. Uma correta articulação entre o oncologista médico e o cirurgião permite selecionar a melhor quimioterapia sistémica e a melhor altura para a fazer, podendo ser antes, após, ou mesmo antes e após o procedimento cirúrgico. Conheça a equipa de cirurgia geral da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.