28 de maio de 2026 Autor : Saraiva da Cunha (infecciologia) Hantavírus é o nome original e mais conhecido de um grupo de mais de cinquenta espécies de vírus cujo género tem atualmente a designação de Orthohantavirus . Os Hantavírus que existem na Europa e Ásia são distintos dos que existem no continente americano. Os hospedeiros naturais dos Hantavírus são principalmente espécies de roedores, às quais estes não provocam doença. Apenas Hantavírus transmitidos por roedores (através dos dejetos e saliva) estão associados à doença humana. As infeções humanas não são frequentes e estão quase sempre relacionadas com contextos de exposição a roedores. Têm uma gravidade variável, desde a ausência de qualquer sintoma, até doença grave, com mortalidade elevada. O controlo de pragas de roedores, assim como a adoção de comportamentos e medidas de proteção individual para evitar contacto com os seus dejetos ou saliva são a principal forma de prevenção de infeções por hantavírus. O número de casos de infeção por Hantavírus reportados anualmente na Europa ao longo dos últimos 15 anos variou entre cerca de 1700 e 5000, sendo a Finlândia e Alemanha os países com mais casos. Neste período, Portugal nunca reportou casos de infeção por Hantavírus. Julga-se que a variação e distribuição geográfica dos casos na Europa esteja relacionada com fatores climáticos, particularidades florestais e agrícolas, e sua relação com a abundância de populações de roedores e respetiva interação humana. Como se transmitem os Hantavírus ao homem? Mais frequentemente, a infeção humana é indireta : Por inalação de partículas de fezes, urina ou saliva de roedores infetados suspensas no ar, o que acontece principalmente em espaços fechados e pouco arejados onde existam ou tenham existido roedores. Espaços típicos com estas características são, por exemplo, armazéns, arrecadações, sótãos, garagens, entre outros; Ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes, urina ou saliva de roedores infetados. Também é possível uma infeção direta : Quando fezes, urina ou saliva de roedores infetados contactam com feridas na pele ou mucosas; Através de mordeduras ou arranhões de ratos infetados. O contágio entre pessoas está documentado apenas para uma espécie de Hantavírus - o vírus Andes - que existe em algumas regiões da América do Sul, e implica um contacto próximo e prolongado. Os Hantavírus provocam doenças diferentes? São conhecidas duas apresentações principais de doença , que estão relacionadas com a espécie de vírus envolvida e com a região geográfica: Febre hemorrágica com síndrome renal e nefropatia epidémica, na Europa e Ásia; Síndrome cardiopulmonar por Hantavírus, no continente americano. Na Europa as infeções por Hantavírus são causadas principalmente pelo vírus Puumala, seguindo-se em importância o vírus Dobrava e ocasionalmente o vírus Seoul e o vírus Tula. Sintomas de infeção por Hantavírus Os primeiros sintomas de uma infeção por Hantavírus são comuns às várias apresentações da doença, não são específicos, estão presentes em muitas outras doenças e são similares aos de uma gripe forte : Febre alta; Arrepios; Cansaço intenso; Dores musculares e dores de cabeça; Náuseas, vómitos e dores abdominais. Febre hemorrágica com síndrome renal Ocorre principalmente na Europa e na Ásia, sendo de notificação obrigatória na Europa. Atinge principalmente os rins e o sistema circulatório. O período de incubação varia entre 10 dias e seis semanas. Inicialmente pode haver febre alta, dores de cabeça fortes, dores musculares e dores intensas na região lombar. Por vezes é visível vermelhidão das faces e sinais de hemorragia na pele e mucosas. Nos casos mais graves, a doença evolui para hipotensão, hemorragias internas importantes e insuficiência renal aguda. A taxa de internamento dos casos confirmados na Europa é de 30%-50%. A taxa de mortalidade varia com o vírus envolvido: pode atingir 10%-15% na Ásia, devido a espécies mais agressivas e geralmente é inferior a 1% na Europa nos casos associados ao vírus Puumala. A nefropatia epidémica é uma forma mais ligeira desta apresentação. Deve-se principalmente ao vírus Puumala e ocorre na Europa. Síndrome cardiopulmonar por Hantavírus Predomina no continente americano e deve-se principalmente ao vírus Sin Nombre e vírus Andes. É uma doença respiratória grave que atinge principalmente os pulmões, mas também o coração. Tem um período de incubação de uma a seis semanas. A doença pode agravar-se em poucos dias, com dificuldade respiratória grave e falta de ar devido a acumulação de líquido nos pulmões. Os casos mais críticos necessitam de cuidados intensivos e têm risco de vida associado, com uma taxa de mortalidade que pode atingir 50%. Diagnóstico e tratamento Dada a raridade das infeções por Hantavírus, quando a doença está em fase inicial, a suspeita poderá apenas ser levantada pelo contexto ocupacional ou história relatada, quando há referência a provável exposição a roedores. O diagnóstico definitivo de uma infeção por Hantavírus necessita de confirmação laboratorial , que é feita através de análises que podem destinar-se a identificar a presença de: Anticorpos contra Hantavírus; Material genético do vírus. Não existe um tratamento antiviral específico para estas infeções. O tratamento é dirigido ao alívio dos sintomas e a cuidados de suporte de vida para que o organismo consiga recuperar: Em casos mais graves pode ser necessário internamento em cuidados intensivos. Prevenção de infeções por Hantavírus Não existe atualmente uma vacina contra Hantavírus. A prevenção baseia-se em medidas que reduzam a possibilidade de contacto com roedores ou com as suas fezes, urina e saliva. Pessoas relacionadas com atividades agrícolas e ao ar livre são grupos de maior risco. Medidas gerais de controlo de pragas de roedores: Nas habitações e outros edifícios, estar com particular atenção a locais onde se armazenem ou manuseiem alimentos, que são particularmente atrativos para os roedores; Manter os espaços arrumados e limpos, particularmente sem alimentos ou resíduos facilmente acessíveis; Armazenar alimentos corretamente; Acondicionar bem e não acumular lixo; Manter o bom estado dos edifícios, tendo o cuidado de reparar fendas em paredes, tetos e soalhos e outros defeitos que promovam condições para abrigo e instalação de ninhos; Instalar iscos e armadilhas nos locais adequados; Estar atento a sinais de presença de roedores. Reforçar medidas de proteção quando se está em locais em que possam existir roedores , particularmente quando se fazem operações de limpeza: Usar luvas de borracha e máscara de proteção; Arejar os espaços; Humedecer previamente (com água e um desinfetante) zonas que devam ser varridas, para contrariar a formação de poeiras; Não tocar em roedores que se encontrem, se possível recorrer a um serviço de controlo de pragas para serem eliminados; Lavar bem as mãos depois de realizar operações de limpeza. Em atividades ao ar livre evitar zonas onde possam existir roedores. Em acampamentos, manter os alimentos e bebidas em recipientes bem fechados e evitar dormir diretamente sobre o solo. Na sequência do surto de Hantavírus Andes associado ao navio de cruzeiro MV Hondius a Direção-Geral da Saúde emitiu a Norma 001/2026 que recomenda os procedimentos a adotar para a gestão de contactos com casos confirmados ou suspeitos. Fontes European Centre for Disease Prevention and Control. Factsheet on Orthohantavirus infections . European Centre for Disease Prevention and Control: Surveillance atlas of infectious diseases . Vial PA, Ferrés M, Vial C, et al. Hantavirus in humans: a review of clinical aspects and management. Lancet Infect Dis 2023;23:e371-82. World Health Organization. Hantavírus . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.