6 de junho, 2024 Autora: Claúdia Febra A oxigenoterapia hiperbárica é um tratamento em que se inala oxigénio com uma concentração de 100% num ambiente em que a pressão é duas a três vezes superior à pressão atmosférica. O ar atmosférico é composto por vários gases, principalmente azoto e oxigénio, este numa concentração de 21%. Em condições normais, o ar inspirado tem uma composição semelhante ao ar atmosférico. Quando se aumenta a concentração de oxigénio no ar inspirado e a sua administração é feita num ambiente com uma pressão superior à pressão atmosférica - como acontece na oxigenoterapia hiperbárica - a concentração de oxigénio nos pulmões aumenta e, portanto, o oxigénio no sangue e a quantidade deste gás que é distribuída aos tecidos do organismo também aumenta. O desenvolvimento dos tratamentos hiperbáricos, com oxigénio (oxigenoterapia) e outras misturas gasosas, foi impulsionado pela medicina militar dada a sua aplicação com êxito em alterações relacionadas com a doença de descompressão associada ao mergulho profissional. A partir de meados do século XX, a oxigenoterapia hiperbárica começou a ser introduzida na prática clínica, depois de se terem demonstrado os seus efeitos benéficos em múltiplas circunstâncias, relacionadas com as ações anti-isquémicas, anti-hipóxicas, anti-edematosas, anti-infecciosas e de promoção da cicatrização. Câmaras hiperbáricas Os tratamentos de oxigenoterapia hiperbárica são realizados em câmaras estanques construídas em materiais resistentes a altas pressões. A pressão das câmaras hiperbáricas que tem efeitos clínicos cientificamente comprovados tem de ser igual ou superior a 2 atmosferas. A utilização de pressões inferiores a 2 atmosferas não permite obter os efeitos clínicos associados aos benefícios do oxigénio hiperbárico. Há vários tipos de câmaras hiperbáricas, as mais usadas na prática clínica são multi-lugar, que permitem que várias pessoas realizem simultaneamente as suas sessões de tratamento e que sejam acompanhadas pelos profissionais de saúde ao longo das sessões. O oxigénio é administrado através de máscaras ou outros dispositivos próprios e o ar expirado é direcionado para o exterior da câmara, mantendo-se constante a composição do ar ambiente. O tratamento é realizado em várias sessões. A duração e número de sessões depende das situações clínicas, sendo mais comuns os tratamentos com 20-40 sessões. Uma sessão de oxigenoterapia hiperbárica habitualmente não excede 2 horas. Indicações e contraindicações da oxigenoterapia hiperbárica Quase todas as situações e doenças em que a oxigenoterapia hiperbárica pode estar indicada têm em comum ser causadas, agravadas ou mantidas por concentrações de oxigénio no sangue e nos tecidos inferiores às desejáveis, o que pode acontecer por: Diminuição da capacidade de transporte de oxigénio no sangue; Obstrução à chegada de oxigénio aos tecidos e células; Incapacidade dos tecidos e células do organismo de utilizarem o oxigénio. Na maioria dos casos, a oxigenoterapia faz parte de um plano que inclui outras modalidades de tratamento. É imprescindível a avaliação individual por médicos com competência em medicina hiperbárica e a programação do tratamento em conjunto com a restante equipa de saúde envolvida no seguimento de cada doente. São exemplos de situações em que pode estar indicada oxigenoterapia hiperbárica: Infeções graves da pele e dos tecidos moles , causadas por alguns tipos de bactérias; Infeções graves ósseas , espontâneas ou que surjam como complicação de outros tratamentos, como cirurgias com material protésico ou radioterapia; Gangrena e feridas de difícil cicatrização , por exemplo associadas a diabetes e queimaduras; Enxertos de pele, músculo ou osso com dificuldade de cicatrização; Lesões consequentes a radioterapia , como radionecrose dos tecidos ou prostatite rádica; Traumatismo com esmagamento de tecidos; Surdez súbita ; Intoxicações por monóxido de carbono , ingestão acidental de peróxido de hidrogénio, envenenamento por cianeto; Doença de descompressão resultante do mergulho; Embolia gasosa arterial secundária a cirurgias ou procedimentos médicos. Praticamente todos as pessoas podem fazer tratamentos de oxigenoterapia hiperbática, embora algumas contraindicações relativas requeiram uma avaliação rigorosa caso a caso , como, por exemplo, doença pulmonar obstrutiva, infeções respiratórias e dos seios nasais, febre não controlada, cirurgia ao ouvido ou torácica recente, história de convulsões. Complicações da oxigenoterapia hiperbárica A oxigenoterapia hiperbárica é um tratamento seguro e bem tolerado . As eventuais complicações são raras, geralmente reversíveis e incluem: Lesões relacionados com variações de pressão, mais frequentemente barotrauma do ouvido médio . Lesões associadas a toxicidade do oxigénio (por exemplo, convulsões e alterações da função pulmonar), cuja ocorrência é minimizada assegurando o cumprimento rigoroso da duração das sessões e da pressão máxima. Problemas individuais de claustrofobia associados à permanência dentro da câmara. A realização de oxigenoterapia hiperbárica obriga ainda ao cumprimento rigoroso de várias medidas de segurança e de todas as indicações da equipa de saúde responsável, que pretendem evitar acidentes relacionados com a presença de compostos combustíveis (o oxigénio) e o aumento da temperatura e da pressão. Fontes Albuquerque e Sousa JG. Oxigenoterapia hiperbárica. Perspetiva história, efeitos fisiológicos e aplicações clínicas. Med Int 2007 14:219-26. Crawford Mechem C, Manaker S. Hyperbaric oxygen therapy. UpToDate . Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.