24 de outubro de 2024 O trabalho de parto é o processo pelo qual o corpo da mulher se prepara para o nascimento do bebé . Caracteriza-se por mudanças hormonais, físicas e emocionais que culminam em contrações uterinas dolorosas e regulares, na dilatação do colo do útero e no nascimento do bebé. O trabalho de parto pode ser dividido em 3 períodos ou estádios: 1º estádio ou período de dilatação 2º estádio ou período expulsivo 3º estádio A duração e evolução destes períodos dependem de múltiplos fatores maternos e fetais . Período de dilatação O período de dilatação, ou 1º estádio, vai desde o início do trabalho de parto até à dilatação completa e compreende duas fases: A fase latente , caracterizada por uma dilatação mais lenta, geralmente até aos 6 cm de dilatação; A fase ativa , com dilatação mais rápida. Alterações do período de dilatação Em 20% dos partos ocorrem alterações ao período de dilatação normal, que podem ser de dois tipos: Trabalho de parto prolongado ou arrastado , que é definido como uma dilatação inferior a 1-2 cm em cada 2 horas, depois de serem atingidos os 6 cm de dilatação; Paragem do trabalho de parto , que é definida pela ausência de dilatação durante 4-6 horas, numa grávida com 6 ou mais cm de dilatação e bolsa rota. As alterações do período de dilatação são mais frequentes no primeiro parto e as suas causas podem ser uterinas (baixa contratilidade uterina), fetais (feto grande ou mal posicionado), relacionadas com a bacia da mãe, ou uma mistura de vários fatores. Existe ainda um componente genético. Avaliar se o trabalho de parto está ou não a decorrer normalmente é um fator chave dos cuidados intraparto. Riscos das alterações do período de dilatação Um trabalho de parto prolongado ou de uma paragem do trabalho de parto têm riscos maternos e riscos fetais: Na grávida , aumenta o risco de corioamnionite (infeção da placenta e líquido amniótico), parto instrumentado (fórceps e ventosa), lesão do esfíncter anal, cesariana, hemorragia pós-parto, retenção urinária e endometrite (infeção do útero); No recém-nascido , aumenta o risco de sofrimento fetal, infeção, problemas respiratórios e eventual internamento na unidade de cuidados neonatais, síndrome de dificuldade respiratória, sépsis (infeção generalizada) e asfixia neonatal. No caso de trabalho de parto prolongado está preconizado o uso de ocitocina e de amniotomia (rotura de bolsa). Nos casos de paragem do trabalho de parto está indicada a realização de uma cesariana. Período expulsivo O período expulsivo, ou 2º estádio, vai desde a dilatação completa até ao nascimento do bebé . A sua duração e evolução depende de fatores como por exemplo : O tamanho e a forma da bacia da mãe; A posição materna; A frequência e intensidade das contrações; A qualidade dos esforços expulsivos; O número de partos anteriores; O uso de analgesia epidural; O tamanho e a posição do feto. Os esforços expulsivos (fazer força) são a contração voluntária do diafragma e dos músculos da parede abdominal. São uma resposta à estimulação do pavimento pélvico pela cabeça do bebé, mas também um esforço que a grávida inicia voluntariamente. Existem várias técnicas descritas para “fazer força”. Nenhuma é superior às outras no que diz respeito aos resultados maternos (por exemplo, duração do período expulsivo, taxa de episiotomia e lacerações) e neonatais (por exemplo, índice de Apgar). Alterações do período expulsivo A maioria das grávidas tem o seu bebé 60-90 minutos depois de iniciar os esforços expulsivos, independentemente do número de partos anteriores ou de ter ou não analgesia epidural. Sempre que este período ultrapasse as 3-4 horas num primeiro parto ou 2-3 horas nos seguintes considera-se que se está perante um período expulsivo prolongado ou arrastado . Dependendo do motivo, um período expulsivo arrastado pode ser indicação para administrar ocitocina, rotação manual da apresentação (cabeça fetal), parto instrumentado (ventosa ou fórceps) ou cesariana. Riscos das alterações do período expulsivo Um período expulsivo arrastado tem riscos maternos (hemorragia e infeção pós-parto), neonatais (maior taxa de admissão aos cuidados intensivos e de sepsis neonatal) e cirúrgicos (maior risco de laceração uterina, em caso de cesariana). Estão descritas várias intervenções, nomeadamente diferentes técnicas de esforços expulsivos, posicionamento materno e exercícios de pavimento pélvico, mas não há evidência científica que demonstre o seu efeito de redução da duração do período expulsivo ou da taxa de partos instrumentados. 3º estádio O 3º estádio do parto é o período desde a saída do bebé até à saída da placenta . O cordão umbilical deve ser clampado 30 a 60 segundos após o nascimento , tendo nessa altura sido transfundido 75% do sangue disponível na placenta. A posição do recém-nascido, abaixo ou acima da placenta, não parece afetar o volume da transfusão placenta-recém-nascido pelo que este pode ser colocado no abdómen materno. A principal vantagem da clampagem tardia do cordão umbilical é conseguir maiores reservas de ferro aos 6 meses de vida, o que pode melhorar o neurodesenvolvimento do bebé. Na mãe, a clampagem tardia do cordão não tem qualquer impacto. As principais desvantagens são o aumento do risco de icterícia neonatal com necessidade de fototerapia, policitemia em recém-nascidos pequenos e menor volume de sangue para colheita de células estaminais (se aplicável). São contraindicações para a clampagem tardia do cordão a mãe ou o recém-nascidos estarem hemodinamicamente instáveis, como acontece nas situações de descolamento de placenta ou rotura do cordão, entre outras. Após a saída do feto, o músculo uterino contrai separando a placenta do útero, levando à sua expulsão (dequitadura ou saída da placenta) . A condução ativa deste processo, quando comparada com a atitude expectante, reduz o risco de hemorragia grave. Este conteúdo foi preparado pela equipa de Ginecologia-Obstetrícia do Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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