Diz-se que é a epidemia do século XXI no mundo ocidental: a obesidade afeta quase 1/3 e da população adulta e é uma das principais causas evitáveis de morte nos países ocidentais. Há décadas que ouvimos falar deste problema, mas a prevalência da obesidade e do excesso de peso na nossa população continua a aumentar. Os números desta doença impressionam, quer quando se fala da sua incidência em adultos, quer sobretudo quando se referem a obesidade em crianças. A obesidade perpetua-se de pais para filhos e a epidemia do século XXI continua a fazer muitos estragos. E o principal problema são os efeitos a longo prazo: a redução da esperança de vida, o aumento da diabetes, do cancro, das doenças cardiovasculares, entre outros. Este é o tema de mais um episódio do MÉDICO ESPECIALISTA RESPONDE , o podcast Hospital da Luz onde os nossos especialistas falam do que sabem, com Daniel Macedo , endocrinologista no Hospital da Luz Lisboa. SPOTIFY | APPLE A obesidade uma doença? Sim, a obesidade é uma doença . Portugal foi, aliás, um dos primeiros países a classificar a obesidade como doença crónica – fê-lo em 2004. Ainda que isso não tenha levado a população e os profissionais de saúde a vê-la como tal, o que é curioso. Como tem consequências estéticas, muitas vezes não é vista como uma doença, mas mais como uma característica física como uma consequência do mau comportamento, o que não ajuda ao seu tratamento e contribui para a sua estigmatização. Acabamos por olhar para a pessoa obesa como alguém que come demais, que não faz exercício, que, no fundo, se ‘porta mal’. E isso não é necessariamente verdade na maior parte dos casos. Quando falamos com estas pessoas e percebemos que, de facto, elas não têm comportamentos muito diferentes daqueles das pessoas com pesos considerados “normais”, percebemos que esta estigmatização é injusta e prejudica a abordagem e o tratamento . Quando um médico diz ‘eu sei que tem uma doença, eu sei que isto não é culpa sua’, muitas sentem que, finalmente, alguém as compreende e as pessoas tornam-se mais recetivas ao tratamento. Estas são pessoas que estão habituadas a que toda a gente à sua volta ache que têm excesso de peso por não fazerem o que deviam. A diferença entre excesso de peso e obesidade Excesso de peso é ter um índice de massa corporal (IMC) superior ou igual a 25kg/m2 . Trata-se de um fator de risco para desenvolver obesidade, sendo que no caso da obesidade o IMC é superior ou igual a 30kg/m2. Provavelmente, este não será o melhor parâmetro para avaliar a obesidade e o risco cardiovascular, mas é aquele que está mais bem estudado e que utilizamos na prática do dia a dia. Idealmente devemos também fazer uma avaliação da composição corporal, sendo a avaliação do perímetro abdominal uma excelente opção. Há uma predisposição genética para a obesidade? O que implica encarar a obesidade como doença crónica? O que se sabe hoje é que, quando as pessoas optam por um comportamento alimentar mais adequado, reduzindo as calorias e aumentando a prática de exercício, há resultados em termos de perda de peso estimados de 3% a 5%. Mas se falarmos no longo prazo - que acaba por ser o que mais interessa, uma vez que esta é uma doença crónica – infelizmente, a grande maioria das pessoas vai acabar por voltar ao peso prévio. Raramente é possível manter o grau de empenho e motivação ao longo da vida quando é preciso perder mais de 20 quilos, por exemplo. Não se trata de uma questão de falta de motivação e disciplina, mas um problema de saúde. Na base da pirâmide, digamos assim, tem de estar sempre o comportamento. Até porque, até há bem pouco tempo, não tínhamos opções farmacológicas para tratar a doença. A prevalência da obesidade foi aumentando sempre e tornou-se uma verdadeira epidemia no mundo ocidental. Curiosamente, dados recentes dos Estados Unidos indicam que, desde que começaram a ser utilizados os novos fármacos para a obesidade, pela primeira vez os números de prevalência da doença parecem estarem a diminuir. Obviamente, ainda é muito cedo para retirar grandes conclusões, mas não há grandes dúvidas de que as coisas estão relacionadas e de que estamos no caminho certo. Se não tenho predisposição genética para a obesidade, nunca vou ser obeso? Como posso saber se tenho essa predisposição? Pessoas submetidas ao mesmo contexto ambiental e social e que têm comportamentos parecidos apresentam pesos diferentes – este é um dos fatores que nos demonstra que existe uma predisposição genética para esta doença. Na maioria dos casos trata-se de uma doença poligénica, o que torna difícil fazer estudos genéticos específicos para conhecer essa predisposição. Habitualmente não se faz na prática clínica. Por que deve a obesidade ser tratada Esta é uma doença com muitos efeitos negativos na saúde de quem é obeso. É um fator de risco para as doenças cardiovasculares, nomeadamente, hipertensão, a diabetes e a dislipidemia. Está também ligada a muitos tipos de doença oncológicas e associada à apneia do sono. Implica indiscutivelmente pior qualidade de vida. Como se explica acima, as alterações comportamentais dificilmente têm resultados a longo prazo. E o que estamos agora a ver com as terapêuticas farmacológicas mais recentes é precisamente uma resposta eficiente a esse problema. Pela primeira vez, temos fármacos que são seguros, que estão aprovados pelas agências europeia e americana do medicamento e que são considerados eficazes, com evidência positiva em ensaios clínicos. E os resultados veem-se, não só na diminuição do peso, mas também na redução do risco cardiovascular. Ou seja, conseguimos melhorar a qualidade de vida e, ao mesmo tempo, evitar enfartes, AVC e a muita da mortalidade associada às doenças cardiovasculares. Como atuam estes novos fármacos? Sendo a obesidade uma doença crónica, a perspetiva para estes doentes é que têm de os tomar para sempre? Os novos medicamentos para a obesidade atuam no centro do apetite e da saciedade: diminuem o apetite e a sensação de fome e aumentam a sensação de saciedade. São, no fundo, um facilitador do processo de ‘comer menos’, que é sempre necessário para perder peso. Tendo a pessoa menos fome e começando a ficar saciada mais rapidamente, está facilitado esse processo. E as pessoas comem efetivamente menos, começando a emagrecer, a sentir-se melhor e a melhorar os seus parâmetros de saúde. Muitos doentes fazem essa pergunta: quanto tempo vou ter de tomar este medicamento? A resposta é esta: se é uma doença e é crónica, a abordagem terapêutica tem de ser pensada a longo prazo. Não podemos garantir, naturalmente, que será sempre o mesmo medicamento que é hoje prescrito. Tem havido muita evolução na investigação da indústria farmacêutica nesta área, pelo que é provável que, daqui a cinco anos, o fármaco seja já diferente. Mas, para tratar esta doença, será muito provavelmente preciso manter algum tipo de terapêutica farmacológica nos próximos anos. Ensaios clínicos demonstram que parar a toma implica tendencialmente voltar a ganhar algum peso. Utilização ‘recreativa’ destes novos medicamentos Estes fármacos estão aprovados e indicados para o tratamento do excesso de peso e da obesidade, destinam-se a pessoas com IMC acima de 27kg/m2 com outras doenças associadas ou acima de 30kg/m2. Não existem no mercado em quantidades astronómicas, logo, o uso ‘recreativo’ - apenas para emagrecer meia dúzia de quilos - aumenta o problema mundial de acessibilidade a estes fármacos. Os profissionais de saúde devem por isso privilegiar a prescrição destinada às pessoas que precisam mesmo do fármaco, aos doentes, aos obesos. Só assim conseguimos tratar a doença e combater este flagelo que é a obesidade. Novos medicamentos: já não é preciso ir ao ginásio? Este é um ponto fundamental. De facto, podemos entrar numa fase de facilitismo e achar que, tendo estes medicamentos, já não é preciso ter preocupações com o que se come ou com fazer exercício. Nada disso. Os novos fármacos não resolvem todos os problemas. E não vão acabar com a doença. São uma importante ferramenta para ajudar a corrigir comportamentos, mas não chegam. O trabalho relevante deve fazer-se na educação e prevenção: é essencial falar neste problema desde muito cedo nas escolas e explicar à população que a obesidade é uma doença para a qual devem estar alertas; e, por isso, é fundamental prevenir o seu aparecimento, promovendo os comportamentos alimentares adequados e a prática regular de exercício físico. A obesidade é uma doença e está nas mãos de cada pessoa em risco a possibilidade de a prevenir e tratar. Conheça a equipa de endocrinologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.