Virgílio Almeida Médico Veterinário Professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa A raiva é uma doença contagiosa causada por um vírus capaz de infetar todos os mamíferos e, portanto, também o Homem. É uma zoonose conhecida há muito, está documentada, por exemplo, em papiros do Antigo Egipto, que retratam pessoas mordidas por cães raivosos. O nome invulgar desta doença deve-se a uma das suas apresentações clínicas mais frequentes - a raiva furiosa -, na qual animais e pessoas atacam seres da mesma e de outras espécies. Este quadro muito intimidante faz com que a raiva esteja enraizada no nosso subconsciente coletivo como uma tragédia a evitar a todo o custo. A vacinação dos cães contra a raiva é pilar principal do controlo da raiva. Depois das vacinas da varíola humana e da cólera aviária, a da raiva ocupa um lugar no pódio dos anais da vacinologia. A vacina contra a raiva foi a terceira vacina a ser desenvolvida - por Louis Pasteur e pela sua equipa em 1885 -, e foi aplicada em populações humanas e animais. Ciclos epidemiológicos e espécies envolvidas na raiva A raiva ocorre em três ciclos epidemiológicos : silvático, rural e urbano. No ciclo silvático participam inúmeras espécies, diferentes entre países e continentes. Na Europa, o principal hospedeiro reservatório da raiva é a raposa vermelha ( Vulpes vulpes ). No continente americano, sobretudo na América do Sul, o vírus da raiva transmite-se por mordedura de morcegos hematófagos (que se alimentam de sangue), lendários desde que Abraham ‘Bram’ Stoker, escritor irlandês, escreveu em 1897 o romance ‘Drácula’, que deu origem ao mito literário moderno do vampiro . O cão, espécie-chave no controlo da raiva O cão é a espécie-chave de todos os programas de controlo da raiva : Porque estabelece a ligação com o ciclo silvático, por exemplo, através de cães de caça e cães de guardas-florestais e de vigilantes da natureza que podem contactar com raposas; Trabalha na interface com o ciclo rural, como os cães pastores, cães de caça e cães de guarda, que também podem contactar com raposas e com matilhas de cães vadios; Movimenta-se na interface com o ciclo urbano, sobretudo através de contactos de risco com cães vadios, mas também com cães adotados ou adquiridos em países onde a raiva é endémica, que possam ter iludido as regras de movimentação internacional da espécie. Transmissão, evolução e mortalidade associada à raiva A forma como a raiva se transmite justifica o medo ancestral associado à mordedura de uma raposa, de um cão ou de um morcego-hematófago. O vírus que causa a raiva está presente na saliva dos animais e das pessoas infetadas . Depois de ser transmitido por uma mordedura, o vírus migra para o sistema nervoso, onde causa uma destruição fatal, caso as pessoas não sejam socorridas rapidamente e com os recursos apropriados. A evolução da doença , com sintomas como excitabilidade, comportamento agressivo, salivação abundante, incapacidade de engolir, convulsões, paralisia, podendo culminar em coma e morte, é terrível de assistir para as famílias das vítimas de raiva ou para os detentores de animais atingidos, e agrava o impacto social desta zoonose. Segundo a Organização Mundial de Saúde, nos nossos dias morre de raiva em todo o mundo 1 pessoa a cada 10 minutos. Quase metade destes óbitos são crianças e jovens com menos de 15 anos. Esta é a realidade que urge alterar. Como sobreviveu o vírus da raiva durante tantos anos? O vírus da raiva desenvolveu ao longo de milénios duas habilidades para se perpetuar nas populações : Tornou-se capaz de infetar todos os mamíferos; Ainda antes de os animais e as pessoas infetadas exibirem sintomas, já a sua saliva é infeciosa. Assim, uma mordedura de um cão aparentemente saudável pode culminar na morte do animal ou da pessoa que foi mordida. Ter o compromisso de vacinar os animais de estimação contra a raiva , sobretudo os cães, faz, assim, parte das responsabilidades que têm de ter todos os detentores destes animais. Raiva em Portugal Em Portugal, a vacinação dos cães contra a raiva iniciou-se em 1940, durante a 2ª Guerra Mundial. Esta guerra, além de ter sido o conflito mais letal da história da Humanidade, foi também responsável por sucessivas vagas de disseminação da raiva na Europa, devidas ao abandono dos cães, à sua integração em matilhas e a lutas, sobretudo, com raposas e lobos. Datam assim daquela época algumas medidas de prevenção que ainda hoje se mantêm na maioria dos países europeus, por exemplo: A vacinação obrigatória dos cães; A captura de cães errantes; A exigência de os cães circularem na via pública à trela ou soltos, mas com açaime; A imposição de isolamento dos animais agressores e mordidos para investigação de potenciais casos de raiva; A monitorização e controlo - quando necessário -, da população de raposas. A combinação destas medidas permitiu a Portugal controlar a raiva canina e vulpina na década de 60 do século XX. Portanto, há mais de meio século que Portugal vive em silêncio epidemiológico no que se refere à raiva, aqui e acolá interrompido pela notificação de casos que são confirmados em Portugal, mas em pessoas e animais que se infetaram noutros países, mais frequentemente nos PALOP. A raiva está extinta em Portugal, mas a vacinação dos cães mantém-se obrigatória As razões são várias: Nunca a mobilidade dos cães foi tão grande como hoje. O cão ganhou o estatuto de membro da família. Passou a viajar connosco entre países e continentes. Alguns dos maiores aeroportos mundiais têm hoje hotéis que oferecem serviços de estadia para animais de estimação para salvaguardar esta mobilidade; Sempre que fizer uma viagem internacional ou simplesmente pretender deixar o seu cão num abrigo ou num hotel para animais de estimação em Portugal, ser-lhe-á exigida a vacina antirrábica atualizada ; Portugal tem uma população muito considerável de cães de caça e de trabalho (cães pastores e cães de guarda, por exemplo) que interagem com fauna em áreas protegidas e em zonas rurais. Acumulam-se evidências em Portugal de que as raposas estão a acercar-se de zonas suburbanas procurando alimento em aterros sanitários e registam-se avistamentos frequentes de raposas no interior de centros urbanos, junto a caixotes do lixo. Em ambos os cenários, as raposas competem com cães vadios para alimento e através de lutas podem gerar cadeias de transmissão da doença. Recentemente, têm sido diagnosticados casos de raiva em países europeus como a França, a Holanda ou a Bélgica, em cães de turistas que adotaram os animais em países do Norte de África, onde a frequência de raiva canina é elevada. Por isso: Vacine o seu cão contra a raiva. Proteja-o e contribua para a proteção de todos . A vacina antirrábica continua a salvar milhares de vidas de animais e pessoas diariamente. As vacinas são muito seguras e já há vacinas capazes de conferir durações de imunidade superiores a um ano, o que reduz o custo da vacinação para as famílias. Não hesite, não se esqueça. Seja um agente de Uma Só Saúde . Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.