Autores: Hugo Vieira Pereira , Rodrigo Martins , Mafalda Antunes e Paulo Pires (fisiologia do exercício) Os wearables fazem parte do nosso dia a dia. São relógios, pulseiras, anéis ou outros dispositivos usados junto ao corpo e que contam passos, acompanham o exercício, estimam calorias e avaliam o sono . Alguns ainda indicam a aptidão física, a recuperação ou até alertam para alterações do ritmo cardíaco. Depois de uma caminhada, apresentam a distância, o ritmo, as calorias gastas e, por vezes, uma estimativa da aptidão física. Na manhã seguinte, classificam o sono e sugerem se está preparado para voltar a treinar. É muita informação, produzida por sensores e algoritmos diferentes. Todos estes dados podem ser úteis, mas não têm todos a mesma precisão ou significado. Saber o que é medido, o que é estimado e como transformar a informação numa ação realista é essencial para usar estes dispositivos corretamente. Medir e estimar não é a mesma coisa Os registos dos wearables podem ajudar a conhecer hábitos, acompanhar o exercício e identificar padrões ao longo do tempo. Para verdadeiramente tirar partido destes dispositivos, importa perceber o que é medido, o que estimado e quais os limites da informação que dão. Os sensores recolhem sinais do movimento e do organismo. Um acelerómetro deteta acelerações do movimento, o GPS ajuda a estima a velocidade e a distância percorrida, o sensor ótico do pulso analisa alterações na luz associadas ao fluxo sanguíneo. A partir destes sinais, o software do dispositivo calcula diferentes indicadores. Por isso, nem todos os valores apresentados no ecrã refletem medições diretas . Muitos são estimativas calculadas por algoritmos que combinam vários sinais e informações obtidas no utilizador. Isto ajuda a explicar por que razão nem todos os indicadores têm a mesma precisão . A contagem de passos, o tempo de atividade, a distância, o ritmo e a frequência cardíaca podem ser úteis para acompanhar tendências. A precisão, porém, varia com o modelo e com a versão do software , a colocação do dispositivo, o contacto com a pele, o sinal de GPS, o tipo de movimento e a intensidade do exercício. A própria contagem de passos não é perfeita. Caminhar muito devagar pode fazer com que alguns passos não sejam registados, enquanto certos movimentos repetidos dos braços ou do pulso podem, por vezes, ser interpretados como passos. Além disso, dispositivos usados em locais diferentes do corpo podem produzir contagens diferentes Os resultados obtidos num grande estudo publicado em 2024 permitiram concluiu que apenas cerca de 11% dos dispositivos identificados estavam validados para, pelo menos, um indicador biométrico. Além disso, a validação de um modelo para um indicador não garante a mesma precisão para todas os restantes. Quando os registos são mesmo úteis Na prática, os registos dos wearables são mais informativos quando se observa a sua evolução ao longo do tempo, usando o mesmo dispositivo em condições semelhantes. Um valor isolado, ou a comparação direta de valores obtidos com dispositivos de marcas diferentes deve ser interpretado com prudência. Indicadores que exigem mais cuidado Calorias e gasto energético As margens de erro podem ser relevantes e diferem entre atividades e dispositivos. Não deve ser usado como um valor exato para decidir quanto comer nem como medida da qualidade de um treino . Consumo máximo de oxigénio (VO₂máx) Este indicador representa a capacidade do organismo para captar, transportar e utilizar oxigénio durante o esforço e é um importante indicador de aptidão cardiorrespiratória. No relógio, resulta habitualmente de uma estimativa baseada na relação entre frequência cardíaca, ritmo e outros dados. Pode ajudar a seguir a tendência individual, mas não equivale à determinação direta realizada numa prova de esforço com análise dos gases respiratórios. Carga de treino e recuperação Estas pontuações combinam dados como frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca, sono e histórico de exercício. Podem ajudar a organizar a informação, mas não conhecem todo o contexto: doença, stress, calor, medicação, dor e fadiga também influenciam a resposta ao treino. Assim, uma pontuação isolada não deve decidir, por si só, se deve treinar ou descansar. Os dados do dispositivo devem ser conjugados com a forma como se sente, o esforço percebido, os sintomas e o contexto. Sono Os wearables podem ser úteis para monitorizar horários, regularidade e duração aproximada do sono. As estimativas das fases do sono são menos seguras e não substituem uma avaliação clínica ou um estudo do sono. Sonolência diurna persistente, ressonar intenso, pausas respiratórias observadas ou insónia prolongada justificam aconselhamento médico, mesmo quando os wearables apresentam valores normais. Saturação de oxigénio e eletrocardiograma Alguns modelos estimam a saturação periférica de oxigénio e outros permitem obter um registo simples da atividade elétrica do coração. Um alerta pode ser útil para iniciar uma avaliação . No entanto, não é o mesmo que uma avaliação clínica, nem indicador dos exames médicos adequados para cada situação. Um alerta do dispositivo não constitui, por si só, um diagnóstico e, da mesma forma, um resultado aparentemente normal não permite excluir uma doença. Dos dados à mudança de comportamento Os monitores de atividade podem ajudar as pessoas a movimentar-se mais. É conhecido que quem usa este tipo de dispositivos normalmente anda mais e durante mais tempo. Mas, naturalmente, isto não significa que se comprar ou passar a usar um wearable este, por si só, tenha esse efeito. Para que um comportamento aconteça e se mantenha, precisamos de capacidade para o realizar, de oportunidade no seu contexto e de motivação. Os dispositivos podem apoiar alguns destes determinantes através de técnicas como automonitorização, definição de objetivos, feedback e lembretes. Mas um lembrete no pulso não resolve, por exemplo, a falta de tempo, um ambiente pouco seguro, sintomas que limitam o exercício ou a ausência de um plano adequado. Transforme informações em ações reais Para tirar partido do seu wearable : Wearables não substituem cuidados de saúde Se tem uma doença, toma medicação que altera a frequência cardíaca ou tem dúvidas sobre a segurança do exercício, acompanhar os registos dos seus wearables e partilhá-los com a equipa que o acompanha pode ser vantajoso. Selecione o período relevante e indique o modelo do dispositivo, o contexto em que ocorreu a alteração e os sintomas associados. Lembre-se que um padrão bem descrito é mais útil do que dezenas de valores sem contexto. E lembre-se também que perante dor no peito, desmaio, falta de ar intensa, palpitações acompanhadas de mal-estar ou outros sintomas agudos, deve procurar cuidados médicos rapidamente, independentemente do que o seu relógio ou outro wearable indique. Mais dados não significam automaticamente melhor saúde. Um wearable é útil quando ajuda a reconhecer padrões, a escolher uma ação possível e a comunicar melhor com os profissionais de saúde. A informação do dispositivo complementa a perceção individual e a avaliação clínica, não as substitui. Fontes Barrera N, Solorzano M, Jimenez Y, et al. Accuracy of smartwatches in the detection of atrial fibrillation: a systematic review and diagnostic meta-analysis . JACC Adv 2025;4:102133. Doherty C, Baldwin M, Keogh A, et al. Keeping pace with wearables: a living umbrella review of systematic reviews evaluating the accuracy of consumer wearable technologies in health measurement . Sports Med 2024;54:2907-26. Ferguson T, Olds T, Curtis R, et al. Effectiveness of wearable activity trackers to increase physical activity and improve health: a systematic review of systematic reviews and meta-analyses. Lancet Digit Health 2022;4:e615-26. Conheça a equipa clínica do centro de medicina desportiva da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.