‘Os pais não têm de ser perfeitos’

Os pais não têm de ser perfeitos

«Os pais não têm de ser perfeitos. Têm de ser suficientemente bons». Esta é a mensagem que, segundo Ana Carvalho, coordenadora da pediatria do Hospital da Luz Lisboa, deve ser transmitida a todos aqueles que já são ou querem vir a ser pais. Na conferência Well’s dedicada ao tema ‘Natalidade – como fazer crescer Portugal’, que se realizou em Lisboa a 9 de maio, a médica pediatra lembrou que a angústia provocada por essa «exigência de perfeição com que as pessoas vivem nos nossos dias» é também um fator de desincentivo à natalidade.

Nesta conferência Well’s, que contou com o apoio, além do Hospital da Luz, dos ministérios da Saúde e da Segurança Social, do Centro Hospitalar Lisboa Central e da Associação População e Desenvolvimento, o debate moderado pelo jornalista Ricardo Costa discutiu a problemática da natalidade na perspetiva das suas oportunidades e desafios. Ana Carvalho reforçou a ideia, já apresentada na conferência, de que os pais apresentam sobretudo razões sociais e económicas – de trabalho e de apoio familiar, entre outras – para justificar o facto de não terem mais do que um filho. Da sua experiência como pediatra e com «pais de idades muito diferentes», tem concluído que basta, muitas vezes, «que a primeira experiência da paternidade não corresponda às elevadas expectativas com que os casais partem, para já não se sentirem tentados a ter um segundo e menos ainda um terceiro filho». 

Por isso, insistiu na mensagem: «Não há famílias perfeitas. Não há pais perfeitos. Aquilo que temos de transmitir, no dia-a-dia do nosso trabalho, é que basta aos pais serem suficientemente bons».

A pediatra lembrou ainda que «as situações de doença crónica, que até há pouco tempo eram incompatíveis com a fertilidade, estão ultrapassadas»: «Essas situações são hoje mais facilmente controladas, permitindo qualidade de vida e a possibilidade de ter filhos sem riscos». O mesmo pode dizer-se quanto à prevenção e vigilância de gravidezes de risco, que hoje são muito mais eficazes, pelo que, «em termos de saúde, temos condições para não haver tantos impedimentos à natalidade». «Parece-me que são, efetivamente, as diversas razões de natureza social que estão na origem das taxas de nascimento em Portugal», concluiu.

De facto, e apesar de os dois primeiros meses deste ano terem dado sinais de uma ligeira mudança na tendência nacional relativamente ao número de partos, a taxa de natalidade em Portugal – 1,3 filhos por mulher – é a segunda mais baixa da Europa, tendo vindo a descer significativamente nos últimos anos.

Isto significa, segundo o que foi apresentado durante esta conferência Well’s, que «Portugal não consegue renovar gerações desde a década de 90» do Séc. XX e que, «a manter-se esta tendência, em 2050 atingirá um declínio populacional praticamente irreversível, estando em causa o crescimento económico e a viabilidade do país».

Vanessa Cunha, socióloga do Instituto de Ciências Sociais, confirmou, aliás, este retrato negro da natalidade, revelando que um terço dos concelhos do país registou, no ano passado, um máximo de 50 nascimento num ano. «Temos um território profundamente desigual e parece-me que Portugal desistiu de ter filhos – e temos de perceber bem os motivos por que isto acontece, uma vez que esta situação tem um impacto enorme e profundo a todos os níveis».

Uma das intervenientes no debate foi Sibila Seddon-Harvey, que deu a sua opinião na qualidade de mãe: «Represento aqui qualquer mãe ou qualquer pai e estou cá apenas por isso». Mas fez questão de dizer que, para se ser mãe ou pai em Portugal, «é de facto precisa uma boa dose de esperança, porque há uma perspetiva muito negativista do futuro». 

João Cília, diretor-geral da Well’s, salientou que esse é, afinal, o fundamento do projeto de promoção da natalidade que a empresa lançou em todo o país e que decorre até ao final de 2018: «Queremos celebrar a natalidade e tornar este assunto prioritário na vida dos portugueses».